Frozen II

Presos Estamos

Por Jorge Cruz

Chamem de Segunda Era de Ouro da Disney ou Renascença, quem moldou sua cinefilia infantil ao longo dos anos 1990 se sentiu mais disposto a amar “Frozen: Uma Aventura Congelante“. Reciclando a narrativa clássica, permeada de canções viciantes, não surpreendeu ao se tornar a maior bilheteria em filmes de animação de todos os tempos em 2013. Um intercâmbio geracional talvez bem mais genuíno do que se observa quando levamos crianças aos cinemas. Seis anos depois (ou sete, já que o Brasil inexplicavelmente terá um delay de um mês no lançamento em comparação a todos os outros países), o estúdio entrega em “Frozen II” uma nova experiência saudosista. Só que dessa vez não de maneira positiva.

Toda a construção da história do longa-metragem faz lembrar as continuações que chegavam apenas em home videoO Retorno de Jafar” (1994) e “O Reino de Simba” (1998) são menos lembrados e revistos do que as produções de origem. Não porque a Disney não contou com a sorte e sim porque ela entendia esses filmes como produtos menores, feitos para satisfazer uma demanda de mercado urgente. Na esteira do sucesso – e diante da complexidade de fazer uma animação em apenas dois ou três anos – a trama original era reciclada com as inserções de conflitos menores, quase emulando o anterior.

A mesma coisa acontece com “Frozen II“, com a diferença de que a empresa tinha totais condições de entregar algo muito além disso. Apostando na fofice de Olaf (Josh Gad) e no dinamismo da canção de abertura, o longa-metragem se ancora desmedidamente na auto-referência. São constantes menções a passagens da obra de 2013, não apenas em prol da piada, mas para dar sentido às ações, revelando uma trama frágil. Em certa passagem, o boneco de neve literalmente conta tudo o que acontece em “Frozen: Uma Aventura Congelante” – e isso é uma piada, por sinal. Jennifer Lee não consegue dar personalidade à continuação, mesmo que o argumento do roteiro seja promissor. Até a inserção do grupo de trolls com a função quase exclusiva de “explicar” o conflito incomoda. A missão de Elsa (Idina Menzel) e Anna (Kristen Bell) não se apresenta, precisa ser imposta, e a dinâmica com Kristoff (Jonathan Groff) é totalmente descartável – ele está ali apenas para pedir Anna em casamento, tal qual o esquilo Scrat da franquia “A Era do Gelo” em suas esquetes com a noz. Em comparação com o lançamento do início de 2019, identifica-se em “Wifi Ralph: Quebrando a Internet” exatamente o oposto, como se toda a criatividade da Disney tivesse sido despejada ali.

“Minha Intuição” é uma canção que, de fato, quer ser a nova “Livre Estou”. Porém, é um momento ainda inspirado do filme. Usa muito bem as vozes que Elsa escuta como chamado, um elemento narrativo vibrante, porém, pouco explorado. O restante da parte musical é quase um compilado de sofrência, como se o Roupa Nova fosse convidado para ser a banda de apoio de MaiarAnna e MaraisElsa. A versão brasileira ganha algumas risadas pelo bom trabalho de Fábio Porchat na voz de Olaf. Só que, na verdade, ele adiciona mais sua personalidade ao personagem do que o contrário.

O que ainda dá um calor no peito é abordar o respeito aos povos originários, com a protagonista fazendo uma crítica sobre o comportamento de sua família. Gostando ou não, Arendelle foi ocupada e desconfigurada pelos brancos que ali aportaram. Os quatro elementos separados cobrando o preço que a Natureza começa a fazer com a Humanidade é uma boa maneira de se abrir o debate com os mais novos.

Todavia, essa aceitação em ser fanfic tira muito da força de “Frozen II“. Trata-se de um projeto muito fresco para a Disney se perder em sua própria grandeza. Isso faz com que a revelação do ato final, um ponto de virada curiosamente interessante, seja tão atirado em meio às referências que se torna mais um ponto a se lamentar. Para os mais novos, as questões propostas pelo filme são ineficientemente engendradas, tornando quase ininteligível. Os mais velhos (motivados por esdrúxulos vídeos viralizados na internet) talvez tenham, de fato, criado a expectativa da Bela Adormecida aparecer no meio da floresta – mesmo que seja onde a Branca de Neve geralmente circula. Até porque a conclusão da obra reforça de certa maneira o discurso colonialista, já que os interesses de Elsa e Anna não passam por destruir a linhagem real. A ousadia da ala representativa e empoderada do estúdio esbarra no fato de que as princesas precisam continuar sendo princesas, mesmo que a solidão do castelo siga provocando subliminaridades em quem nos governa.

 

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