O Reino Gelado: A Terra dos Espelhos

Contra um Mal Maior

Por Jorge Cruz

Como franquia, os números mostram que “O Reino Gelado: A Terra dos Espelhos“, quarta produção da saga protagonizada por Gerda (no Brasil dublada por Larissa Manoela) será responsável por uma vertiginosa queda na arrecadação. Após as bilheterias anteriores apresentarem sustentável crescimento (13, 15 e 24 milhões de dólares, respectivamente), essa longa-metragem terminou sua campanha inicial nos países onde possui mais popularidade faturando apenas um terço da produção anterior (8 milhões de dólares).

Se a qualidade da animação impressiona, o roteiro de uma equipe de cinco pessoas deixa suas ideias mais inspiradas para o terço final. Durante quase todo o tempo de projeção, a aposta do filme é divertir usando puramente a aventura. A crise que impulsiona a história se resume na tentativa de expulsão de todo e qualquer mágico pelo Rei. De forma ardilosa, o soberano espalha a fake news de que está à procura de um profissional para ser contratado como o oficial da Realeza. Sempre que um mágico chega ao palácio, ele é enviado automaticamente para a terra onde a Rainha da Neve se encontra.

Após uma introdução ligeira, nos deparamos com uma sequência de desventuras de Gerda. Ela não consegue impedir o envio de seus pais e seu irmão para o exílio. Portanto, deverá pedir ajuda a piratas e trolls para uma missão de resgate. Missão essa que gira boa parte do tempo nos problemas enfrentados pela própria protagonista, que demora a avançar em seu intento, uma vez que o roteiro precisa criar novos problemas a serem resolvidos. Com isso, “O Reino Gelado: A Terra dos Espelhos” passa boa parte de seu miolo andando para os lados, em prol de uma nova sequência recheada de ação.

Mesmo assim dois pontos da trama se revelam bem interessantes. O primeiro é o fato de Gerda aceitar a construção de uma aliança pontual com a própria Rainha da Neve, para aumentar as chances de salvar sua família e a comunidade de mágicos da dureza do exílio. Logo a protagonista que ficou marcada na saga por ser a única capaz de derrotar o que outrora fora uma vilã. O texto do longa-metragem explora por mais de uma vez essa proximidade pertinente entre as duas personagens. Nos faz pensar em alguns momentos o quão longe iríamos na criação de parcerias dependendo do objetivo a ser alcançado. Não faz nem cem anos que o mundo viu os Estados Unidos e a União Soviética elegendo o Nazismo como inimigo comum. É de se questionar se estamos preparados para criar novos laços em prol de uma luta contra a barbárie e o genocídio, em tempos onde a sombra da tirania volta a tapar o Sol em boa parte do planeta.

O outro ponto, que dialoga com essa abordagem do roteiro, se desenvolve apenas na parte final e se aproxima mais do resgate da humanidade, tanto por Gerda quanto pela Rainha da Neve. Quando uma pirata surge para adicionar elementos favoráveis à luta por justiça, ela se apresenta com uma justificativa brilhante: a de que ninguém quer viver em um mundo sem mágica e se não nos voltarmos contra essa proibição e perseguição a esse grupo, mais cedo ou mais tarde podemos fazer parte do novo grupo a ser exterminado.

A mensagem por trás da história só não permite uma apreciação maior do longa-metragem posto que parece inserida ali como mera “lição de moral”, uma verbalização rápida que mal deverá ser percebida pelos mais jovens. Ao mesmo tempo em que acerta ao não caricaturar o antagonista, não cria contrapontos diretos que permitam que o espectador veja muita coisa além de inúmeras sequências de aventura. A motivação por trás de suas atitudes, de proteção ao filho (um defensor da família ou “cidadão de bem”, vejam só) e a velha metáfora de quebrar os ovos para fazer um omelete como argumento para a descartabilidade de alguns humanos demoram a surgir e quando aparecem tudo se encontra plenamente estabelecido. Até mesmo elementos tão comuns em produções com essa linguagem, como o humor e o romance passeiam pela tela apenas nos momentos derradeiros.

No Brasil, a acertada decisão de contar com a popularidade de Larissa Manoela junto às crianças e adolescentes pode garantir a “O Reino Gelado: A Terra dos Espelhos” uma passagem mais marcante pelos cinemas e serviços de streaming. No seu país de origem, contudo, as desventuras de Gerda parecem com os dias contados.

 

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