Crítica: Wifi Ralph – Quebrando a Internet

Por Fabricio Duque

Desventuras conectadas

Por Fabricio Duque


Continuações de filmes deveriam ser mais livres narrativamente, visto que não há mais a pressão de se apresentar personagens, e, assim, novas histórias pode ser melhor desenvolvidas. Alguns não conseguem, mas muitos outros alcançam um resultado mais que satisfatório, como é o caso de “Wifi Ralph – Quebrando a Internet”, que depois de “Detona Ralph” de 2012, imerge o público em desventuras por dentro da internet, dando vida a seu conceito abstrato e analisando o comportamento social contemporâneo. É também uma ode humanizada à amizade, que respeita a quintessência da confiança e de aceitar idiossincrasias, limitações e sonhos dos envolvidos.

A animação também uma paródia da Disney zoando as próprias princesas e suas tragédias conto-de-fadas. Quando Vanellope aparece por engano no quarto com as icônicas e famosas “sofredoras”, entre elas Bela Adormecida “Nap Queen”, Branca de Neve, Mulan, Rapunzel, A Pequena Sereia, Valente, Elza de “Frozen” que já foram “envenenadas”, “raptadas” e outras “adas”, que a deixam assustada, a trama ganha uma liberdade sem amarras, galgando a linha tênue do politicamente incorreto com um humor tão espirituoso e perspicaz que somos conectados a nossas nostalgias de um jeito completamente diferente. Porque depois adentramos em uma reunião da Luluzinha, tentando que tentam ajudá-la a superar com as terapias do mundo animado.

Sim, A Disney sabe muito bem como conduzir naturalmente emoção e reação sem necessidade de pieguices. Vamos do riso a espontâneas lágrimas com a história de um amor incondicional. Ralph, a figura do pai e amigo ingenuamente infantilizado, quase um que de Shrek “grandão bombado”, concorda com tudo que deixe sua “filha amiga” feliz. Até se aventurar no desconhecido.

Juntos, eles saem de suas cavernas protegidas pela inocência de um saudosismo oitentista dos fliperamas (Arcade), desbravam novas possibilidades de viver / existir e dão vazão aos próprios impulsos. Da simplicidade equilibrada e assentada da convivência segura com os Pac Man, por exemplo, ao desequilíbrio total da teoria do Caos, que só se transforma e muda na destruição, entre vírus King Kong, Haters em mensagens ofensivas, Spams. A atmosfera nos infere ao desenho “Reboot”, em que seus personagens viviam e trabalhavam dentro de um Mainframe.

Ralph (voz de John C. Reilly), o mais famoso vilão dos videogames, e Vanellope (voz de Sarah Silverman), sua companheira atrapalhada, iniciam mais uma arriscada aventura. Após a gloriosa vitória no Fliperama Litwak, a dupla viaja para a world wide web, no universo expansivo e desconhecido da internet. Dessa vez, a missão é achar uma peça reserva para salvar o videogame Corrida Doce, de Vanellope. Para isso, eles contam com a ajuda dos “cidadãos da Internet” e de Yess, a alma por trás do “Buzzztube”, um famoso website que dita tendências.

“Wifi Ralph – Quebrando a Internet”, dirigido por Rich Moore (de “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”, “Detona Ralph” e episódios de “Futurama” e “Os Simpsons”) e Phil Johnston (seu co-diretor estreante), é uma viagem metafórica a questões filosóficas que atingem todo e qualquer ser, humano e ou inanimado fantasiosamente, como os passarinhos azuis do Twitter. E ou o a concretitude do vício do vício que se abate sobre nós, com nossas cabeças baixas, subservientes em uma máquina nas mãos. Isso causa o estresse e consequentemente o desgaste, que aqui é sinalizado pela força de energia e pela falha de sistema.

Mais uma vez, a animação pega carona no gênero dos pequenos, mas a destina aos adultos, mais maduros e mais perspicazes quando se trata de traduzir simbolismos existenciais. Ecoa Pixar com todo aparato de construção sentimental da Disney. Conjuga emoção e humor espirituoso. Equilibrado na medida certa, como em uma descoberta fórmula pronta de sucesso, que por mais que se tente, é impossível errar (diferentemente de “Pixels”, que apesar da interessante premissa, faz de tudo para abarcar a padronização. “Wifi Ralph – Quebrando a Internet” por mais que se comporte parecido, é totalmente outro. Tudo devido a sua carga de organicidade humanizada mais à “Divertidamente”.

Nós embarcamos da nostalgia de uma época que o tempo ainda existia a um universo em que “corações likes” se transformaram em dinheiro. Nesta modernidade, o amor é líquido, volátil e cruelmente competitivo. Os usuários perdem-se em seus quereres, que não mais deles, são influenciados pela massificação manipulada da fama, ainda que amputada. Sim, o mundo mudou. Talvez não há mais espaço para histórias simplesmente ingênuas. Agora com duplas e triplas interpretações. Acordamos em uma era de mentes expandidas?

Quando Ralph “quebra a internet”, o filme quer a transgressão crítica. Uma forma de reivindicação de espaço e de fatia de um mercado intransponível a meros mortais. De manter atitudes, dons, propósitos e auto-limites. De respeitar individualidades e características próprias dominantes, como a paixão pela velocidade e pela não veneração do modelo Girlish menininha que se baseia em vulneráveis princesas à mercê de seus príncipes. O longa-metragem semeia questionamentos que levam o público a um carrossel de auto-análises. É uma completa sessão terapêutica pela leveza da narrativa e da estética multi-colorida. “Wifi Ralph – Quebrando a Internet” encanta os pequenos, e principalmente os grandinhos. Destaque para a homenagem animada a Stan Lee.

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