Frans Krajcberg: Manifesto

Manifesto de uma Vida singular

Por Vitor Velloso

Mostra de São Paulo 2018

É fácil reconhecer o que motivou Regina Jehá a querer realizar um documentário sobre o artista e ativista ambiental, Frans Krajcberg. A figura de 95 anos que surge na tela como um ancião, é imponente por seu passado e debilitado pelo mesmo, construiu de maneira incessante uma militância acerca da preservação da Amazônia e da Mata Atlântica, abrindo sua criação, sua arte, parte do corpo desta luta.

Curioso imaginar o lançamento do documentário em um cenário político tão controverso como este, onde a pauta brasileira mais discutida internacionalmente, diz respeito diretamente a nossas florestas. Jehá não projeta tal discussão, pois o filme já havia sido exibido ano passado, durante a Mostra de São Paulo 2018, logo, o assunto não poderia estar inserido no longa.

A diretora constrói uma lenta progressão dos discursos do artistas, compondo o primeiro dia de filmagem, onde pede permissão para filmá-lo, compreendemos determinadas resistência de Frans durante a entrevista, ainda que tenha sido cordial e aberto o suficiente para que gerasse o material. Costurando entre tempos distintos, a cineasta arquiteta um anacronismo diante das falas de Krajcberg de maneira eficiente, demonstrando a coerência e a lucidez ao longo de todos estes anos. A verve combativa dos danos que os Homens causam ao planeta, e a violência generalizada entre nós mesmos, ganha forma e contorno através do olhar do artista. E Regina consegue transformar isso em sua forma fílmica com uma destreza ímpar, pois utiliza filmagens, narrações e imagens de arquivo, de maneira a colocar o espectador em sintonia com aqueles pensamentos, o jogo que se constrói entre a imersão da tela e a voz singular de Frans, gera uma vertigem na imersão que impacta diretamente o olhar do público. Tal postura na linguagem, diferencia “Frans Krajcberg: Manifesto” da maioria dos projetos, inclusive pelo seu tempo de produção, que tornou o documentário em um filme-manifesto, que se despede do artista com suas próprias falas e imagens, ocupando a tela de projeção integralmente.

É fascinante como Jehá centraliza o longa na base do discurso de Frans, sintetizando a obra e a natureza em uma coexistência que ultrapassa a película e se expande de maneira horizontal sem comparações desnecessárias, afinal o assunto está dado no título. O filme circula questões políticas sempre através do olhar de seu protagonista e suas reflexões que projetam uma atemporalidade apaixonante. Não se detém uma unilateralidade das proposições estéticas expostas aqui, pois a constante progressão do pensamento e da manutenção das obras, sempre em prol da preservação da natureza, capilariza tais possibilidades e sustenta uma diversidade que dialoga com a pluralidade presente no próprio meio onde Frans trabalha.

As narrações da diretora ajudam a compor parte dessa construção lírica que “Frans Krajcberg: Manifesto” se propõe, ainda que não torne a figura central uma espécie de totem. Porém, há uma artificialidade nas falas que incomodam e tiram o espectador da obra, pois a maneira com que se lê o texto, cria pausas e perde gravemente o fluxo do conteúdo, o que acaba impactando diretamente na parte imagética também, já que o público está inserido neste transe de imagem e som. O desconforto é tamanho que até retornamos ao sentimento anterior, pode ser que parte da intenção seja perdida, pois a lentidão do longa, em forma e narrativa, quebra esse retorno. E o que torna o filme pouco acessível, ao grande público, é essa construção que respeita o tom da fala de seu protagonista. Uma escolha louvável e compreensível, mas que sem dúvida gera um rompimento na acessibilidade da obra.

Sendo o manifesto de um pensamento eterno, de uma figura que sustentou a defesa pela Natureza e da Vida, “Frans Krajcberg: Manifesto” projeta aos cinemas uma possibilidade de conhecer o artista, mas também de se pensar na forma documental como parte de seu processo criativo diante do personagem que se filma. E neste ponto, Regina Jehá acerta com precisão ao condensar sua linguagem em prol de uma estrutura que priorize a experiência do espectador diante da obra de Frans e sua espiritualidade.

 

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