For Sama

A Última Mãe em Aleppo

Por Jorge Cruz

For Sama” foge da cansada premissa que se valem cineastas para se colocarem dentro de conflitos – em sentido amplo, não apenas os armados. Sempre um fator que possibilita documentários poderosos, desta vez Waad Al-Kateab recebe em sua cabeça um bombardeio pelo qual não conseguiria fugir. Assim tem início um dos mais perturbadores e fundamentais longa-metragem dos últimos anos, com grandes chances de sair da cerimônia do Oscar 2020 com o troféu de sua categoria.

O filme se apresenta como uma carta da diretora para sua filha, Sama Al-Kateab, nascida no período de ataques do Estado Islâmico na cidade de Aleppo. Seu marido, Hamza Al-Kateab, é um dos trinta e dois médicos que permaneceram no local, realizando centenas de atendimentos e diversas cirurgias diariamente. A falta de segurança da família e a sobrecarga de trabalho é tanta, que todos eles moram no centro médico. Apesar do imediatismo que urge nas representações das imagens mais fortes, do ano de 2016, Al-Kateab consegue realizar duas importantes contextualizações: a histórica, traçando o período de quarenta anos de governo representado desde 2000 por Bashar Al-Assad e a pessoal, trazendo em alguns momentos na parte inicial da obra sua trajetória de construção do documentário a partir de abril de 2012.

Estima-se que os conflitos na Síria já tenham deixado mais de meio milhão de mortos desde 2011, tendo como principal oponente das instituições minimamente constituídas o Estado Islâmico. Por óbvio, a cineasta não deixa de se valer de equipamentos mais potentes, como o uso de drones, resultado da co-produção com o Reino Unido. Todavia, o que chama a atenção em “For Sama” é que ele materializa uma das possibilidades mais fortes que os dispositivos móveis pode oferecer. Inclusive pode ser elevado ao status de uma das obras mais significativas sob essa ótica. Acreditando, a princípio, testemunhar uma das transformações mais relevantes da sociedade síria nesse século, aos poucos a guerra vai tomando conta da imagem. Al-Kateab usa, à distância, uma bela captação de Aleppo em 2013 e consegue fazer a transição para a exata mesma imagem três anos depois. O rastro de destruição é gritante.

Ao mesmo tempo que não poupa o espectador de corpos sem vida ou dilacerados, o documentário é um tocante álbum de família. Quase como se todas as sensações fosse provocadas pelo longa-metragem. Assim como acontece em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e milicianos no Brasil, a indiferença causada por barulhos de tiros (e bombas) é talvez o único paralelo direto com a realidade do espectador brasileiro. Por isso “For Sama” pode ser considerado um importante documento para o Ocidente. Por mais que o conflito sírio tome conta de parte do noticiário internacional, com o tempo as imagens e a maneira como a mídia relativiza os fatos faz com que o assunto perca a força. A obra de Waad Al-Kateab, co-dirigida por Edward Watts (experiente em programas sobre o Oriente Médio para a televisão britânica pela primeira vez atuando em um produto pensado como cinema) vai pelo caminho oposto, ao prender nossa atenção por mais de noventa minutos com a crueza dos dramas vividos pela população daquela região.

É possível sentir o risco de morte iminente a cada nova cena do documentário. Por isso, ele é muito mais assustador e desesperador. Mesmo assim, a montagem feita por Chloe Lambourne e Simon McMahon, profissionais com experiência parecida com a de Watts, aproxima “For Sama”, em linguagem, a um filme de guerra ficcional. São constantes a recuperação de alguma situação ocorrida antes do endurecimento da batalha, como se guiasse o público dentro de um diário folheado a esmo por sua realizadora. Na parte emocional, a escolha de foco em crianças de todas as faixas, cada qual sofrendo e desenvolvendo uma maturidade forçada ao seu jeito, potencializa a carga dramática da obra. Ou seja, o longa-metragem se propõe a traçar várias linhas narrativas e consegue ser eficiente e mexer com nossos brios em todas elas.

A pessoalidade, por sinal, aproxima essa obra de Democracia em Vertigem. Sem querer atuar como advogado de defesa de quem vê em Petra Costa uma documentarista tendenciosa (como se não houvesse uma linha editorial a ser seguida em obras do gênero), ela jamais poderia realizar “For Sama” da maneira como Waad Al-Kateab o fez. O contrário também é verdadeiro. Entender qualquer profissional envolvido com manifestações artísticas como produto de seu meio é fundamental para que não se cometa injustiças ou sofra decepções. Roberta Mathias traz esse contrapeso de forma contundente no artigo “Democracia em Vertigem: Uma Reflexão”. Não devemos ter dúvidas de que a diretora síria sofrerá críticas pelas múltiplas visões acerca dos conflitos na região da Síria. Isso não desautoriza seu documentário que, assim como o de Petra Costa, é absolutamente magnífico – cada qual a sua maneira.

Além de tudo isso, pensar na forma como a cineasta entrega seu trabalho o torna ainda mais simbólico. Enquanto Feras Fayyad, ao realizar “Últimos Homens em Aleppo” já possuía certa experiência, sua condição de homem de certa maneira facilitava seu trânsito. Não apenas antes, mas também após o sucesso de seu filme. Tanto que, com o apoio da National Geographic, ele lançou menos de dois anos depois “The Cave“, concorrente direto de “For Sama” na disputa pelo Oscar de melhor documentário em 2020.

Apesar de falarmos de obras muito próximas em seu objeto, a visão pensada por Al-Kateab é ainda mais potente. Uma mulher, a princípio grávida e depois com um bebê dependente dela, na zona de conflito mais intensa do planeta, na briga entre um governo ditatorial e outro extremista. Todas as formas possíveis de tornar esse documentário o mais próximo de impossível de ser realizado estão ali. Usando uma perspectiva de constituição da maternidade e vendo nas crianças mais velhas o influência do ambiente, que cria uma carcaça dura, “For Sama” é um retrato definitivo das consequências sofridas por um povo a partir de uma guerra que, como todas, é injustificável. Ao perceber que não há espaço para choro em quase nenhuma sequência, fica para o espectador a representação do mais angustiante possível. É quando um bebê, retirado sem vida da barriga de uma mãe, é ressuscitado por Hamza. A demonstração de que ali está uma comunidade que precisará vencer a morte desde seu nascimento.

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