Eu Sou BrasileiroEu sou brasileiro

Chernobyl das telonas

Por Vitor Velloso

Projeta às 7 Cinemark

 

Cada segundo de projeção torna o filme uma das películas mais marcantes de 2019. A maneira como a música tenta nos emocionar, a atuação sempre gritante que busca aproximar o espectador das dores dos personagens, a trajetória do protagonista…Não há eufemismos capazes de minimizar a experiência de assistir “Eu sou brasileiro”. Um dos maiores desastres cinematográficos do ano.

Na verdade, “desastre” não é honesto, pois cada coisa aqui foi feita com uma clareza ímpar, logo, não podemos dar o aval de equívoco ao dever cumprido.

Alessandro Barros, que assina a direção, conduz cada cena na intenção de manipular o espectador para criar a essência de uma história de superação. Com todos os clichês à sua disposição, ele utiliza o arsenal inteiro até o último segundo do longa. A estrela prometida que acaba sendo freada por um acidente. A necessidade de dar a volta por cima, mas se martirizando por aquilo que deixou de ser. Remediação consigo…

Todos os passos estão aqui, é uma receita de bolo que Alessandro segue do início ao fim. Tudo na narrativa é previsível, inclusive o “plot twist”, pois o próprio material de divulgação do filme consegue estragar (ainda mais) o dramalhão novelesco que está na tela. A estrutura se convenciona de tal maneira, que as músicas utilizadas aqui, são praticamente as mesmas das produções norte-americanas do gênero. Mas aqui está tudo tão explícito, que torna-se vulgar a tentativa de impulsionar qualquer sentimento, frases de efeito de dois em dois minutos, diálogos sofríveis e assustadoramente expositivos, interpretações canhestras e atores claramente desconfortáveis com a situação.

Daniel Rocha (Leonardo Silva) nunca impressionou, mas em “Eu sou brasileiro” seu trabalho encontra outro patamar. Cada expressão surge como um gatilho rápido à uma reação qualquer, ele tenta emular outras interpretações de “superação” com trejeitos fáceis, como correr cambaleando. Fernanda Vasconcellos (Lu) entrega mais um projeto sofrível em sua carreira no cinema. Se os protagonistas não funcionam, os coadjuvantes são um show à parte.

Em um momento específico de “Eu sou brasileiro”, Léo está dando aula de futebol para crianças, um pai, de terno, reclama o tempo inteiro da atuação dos jogadores, xinga seu filho, o chama de marica e tenta por o garoto pra baixo. O protagonista reclama da atitude do pai, que vem tirar satisfação com o treinador (a pieguice é tamanha, que o homem entra no campo fumando, maior propaganda antitabagista do cinema de 2019), cada diálogo desta cena é nocivo ao espectador, pois além das falas serem patéticas, a atuação de ambos gera risadas. O soco que sucede o momento possui uma sonoplastia icônica, free sound está em dia.

E se o foco era a “mensagem” a ser passada, ela fica clara com dois minutos de projeção, ainda que piegas. Há anos é possível analisar no cinema brasileiro, uma crescente daquilo que pode ser definida como “direção publicitária no cinema”, ou seja, uma constante tentativa de vender algo, com meios que não se conhece. E isso torna-se muito claro, se falarmos dos aspectos formais do filme. A montagem que não se encontra, saltando de um take à outro sem ritmo, cortes de expressão à expressão. Uma fotografia que parece compreender a estrutura toda como uma propaganda de carro. O design de som que insiste em ser medíocre constantemente.

O filme-publicidade burguês, onde o brasileiro com sua força de vontade é capaz de tudo, atinge seu auge com mensagens motivacionais na tela (é sério), enquanto o protagonista corre atrás de seu sonho. A falta de respeito com o público fica por parte da negligência com a realidade, já que “Eu sou brasileiro” trata de uma história absolutamente artificial.

Curioso ver algumas entrevistas do realizador e dos atores sobre o filme, pois todos muito bem vestidos, exaltam o luxo do hotel onde estão hospedados, raramente falando sobre o material em si, que revela bastante sobre o processo de construção dessa narrativa.

Alessandro comenta: “O grande diferencial do escritor de livro, pro escritor de roteiro, é que o escritor de roteiro tem a possibilidade de ver seus personagens saírem do papel”. Então, caro Alessandro, dirija seus atores para que interpretem, não como se lessem o papel.

“Eu sou brasileiro” é um retrato nacionalista de uma burguesia que compreende a necessidade do sonho na vida daqueles que se dão ao luxo apenas de fazê-lo, mas jamais esclarece as verdadeiras implicações sociais daquilo que trabalha. 

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=kZnihFhfZZE

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *