Eu Sinto Muito

Mosaico Limítrofe

Por Jorge Cruz

Eu Sinto Muito”, projeto cuidadoso do cineasta Cristiano Vieira, mesmo se apresentando de maneira irregular, consegue aliar uma produção correta com o desenvolvimento eficiente da temática a qual se propõe. Inserindo um falso documentário dentro da ficção, o longa-metragem abre discussão acerca da Síndrome de Borderline ou Transtorno da Personalidade Limítrofe, uma doença de ainda difícil diagnóstico mas potencialmente agressiva para quem a carrega e também para pessoas afetivamente próximas.

O grande acerto do roteiro de Vieira, escrito em conjunto com Antônio Balbino, é não apostar em um protagonismo, trançando sua estrutura a partir de um mosaico. Mesmo que de forma simples, já que não são muitos os personagens, o trânsito das cenas iniciais, inserindo todos eles de maneira natural, chama a atenção para o objeto central da trama – a doença em si – de forma direta. Quase como o primeiro capítulo de uma novela bem escrita. O prólogo mostra a enfermeira Isabelle (Juliana Schalch) se qualificando como uma mulher de 29 anos, limítrofe e sem paciência para coisas sem sentido. Essa consciência forte de seu lugar no mundo não é compartilhada na primeira cena, de fato, do longa-metragem. Nela, seu companheiro recebe um casal de amigos que há muito não via para um jantar em casa. Ali pequenas doses de misoginia, tratando as duas mulheres do ambiente ora como frescas, ora como neuróticas já denota que a linha do tempo de “Eu Sinto Muito” será móvel, dada a falta de reação dessa primeira quase-protagonista.

Após o término do ato introdutório, a inconsistência do desenvolvimento fica flagrante. Com um leque de histórias na mão, no intento de levar adiante todas elas sem hierarquizar, o texto cai em uma armadilha. Passa algum tempo mastigando determinadas situações a partir de diálogos rasos – prejudicando, inclusive, a atuação de alguns nomes do elenco. Cenas que pecam por um didatismo que joga contra aquele naturalismo mencionado antes. Toda a insegurança dos personagens, principalmente Isabelle em forte carência afetiva, acaba sendo verbalizada desnecessariamente. Uma forte construção de personagem se desenrolava aqui, não só pela cena do jantar já mencionada como pela hostilidade sofrida em seu local de trabalho pela abordagem da mãe de um dos pacientes do hospital.

Quando Julio (Rocco Pitanga) surge como o documentarista que unirá as peças do mosaico, esse misto de obra relevante e eficiente no trato do seu objeto com um texto elaborado com limitações já toma conta de “Eu Sinto Muito”. O caráter sócio-educativo da produção é alcançado, sem deixar transparecer que estamos diante de uma sequência de estudos de caso – o que o aproximaria de um documentário tradicional. Todavia, o filme não pode ser classificado dessa forma por muito pouco, transparecendo uma fragilidade narrativa que quase põe tudo a perder.

Um dos elementos que ampliam um pouco o caráter artístico da obra é o bom uso do espaço urbano. Toda a história de passa em Brasília, um local que por si só se revela um gatilho de muitos transtornos que envolvem a mente. A diversidade de locações é resultado da maneira cirúrgica como os três personagens abordados por Júlio se relacionam com a cidade e seu emprego. Além de Isabelle, temos Marta (Carolina Monte Rosa), uma policial militar que sente a pressão de viver sob risco de morte a todo o tempo enquanto seu marido tenta a vida como artista visual. Enquanto que o músico Luís Guilherme (Wellington Abreu) já nos é apresentado à beira do suicídio e desenvolve um relacionamento a partir de seu tratamento da Síndrome de Borderline. Pessoas que dificilmente se cruzariam em um território tão assustador e hostil quanto Brasília e, portanto, seriam incapazes de dividir suas experiências com outros que vivem os mesmos problemas que eles.

Nesse mosaico limítrofe criado por Cristiano Vieira, fica marcada a importância de se conhecer as doenças que a cada dia se alastram em uma sociedade problemática quanto a nossa. O Transtorno de Personalidade Limítrofe é diagnosticado a partir da observação, pois não há uma maneira clínica de atestá-lo. A multiplicidade de comportamentos que permitem enquadrar a pessoa é proporcional ao número de outras doenças que geram as mesmas atitudes. Por isso que “Eu Sinto Muito”, trazendo exemplos que vão da tendência suicida à mania de perseguição em uma narrativa urbana que lembra às vezes “Crash – No Limite” (Paul Haggis, 2004), consegue fazer o espectador relevar alguns de seus problemas constitutivos em prol da pertinente abordagem acerca de mais um mal que começa a tomar conta de muita gente.

 

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