Embaixo da Luz de Neon

A monótona reflexão

Por Vitor Velloso

Festival de Sundance 2025

Embaixo da Luz de Neon

A seleção dos documentários da Academia do Oscar 2026 para serem os representantes da categoria no Oscar é inconstante há algum tempo, e isso é difícil de negar. Mesmo que “No Other Land”, dirigido por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, tenha vencido no ano passado, não podemos ignorar que a premiação, em 2023, para “Navalny”, dirigido por Daniel Roher, propaganda descarada e mal-intencionada (a despeito de questões ideológicas), foi uma tragédia. “20 Dias em Mariupol”, dirigido por Mstyslav Chernov, tem fragilidades claras, “Summer of Soul (…ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada)”, dirigido por Ahmir “Questlove” Thompson, não é um dos auges da categoria, e “Professor Polvo”, dirigido por Pippa Ehrlich e James Reed, é bastante questionável. Por outro lado, “OJ: Made in America”, dirigido por Ezra Edelman, e “Citizenfour”, dirigido por Laura Poitras, são ótimos representantes da categoria nesse recorte recente.

Essa inconstância da seleção nos traz a “Embaixo da Luz de Neon”, dirigido por Ryan White, que também dirigiu o badalado “Pamela Anderson – Uma História de Amor” (que não assisti). Lançado no Brasil no final de 2025 diretamente no catálogo da Apple TV+, o documentário acompanha o poeta e ativista Andrea Gibson nos últimos anos de sua vida, após receber o diagnóstico de um câncer terminal e sem possibilidade de cura.Trata-se de um projeto muito pouco inspirado, trazendo consigo uma série de maneirismos pouco criativos e que repousam constantemente em uma estrutura profundamente entediante, com um pé no constrangimento.

Veja bem: não é um filme desonesto ou que proponha algo fortemente questionável, mas sua estrutura é tão burocrática que, em determinados momentos, soa como um vídeo de YouTube. Por mais que a história seja emocionante — e isso é inegável —, a montagem, assinada por Berenice Chávez, entra em um estranho processo de conflito estético dentro de sua própria estrutura. Ora decide pausar para que o espectador possa apreciar as imagens, compreender os sentimentos, observar suas personagens centrais, refletindo sobre como o tempo finito não parece corroer suas vidas, mas redimensionar certas perspectivas e lembrar das boas memórias com um carinho extra; ora decide dinamizar uma situação que não contribui tanto para o processo geral, ou até atrapalha.

Quando as histórias contadas e os áudios revisitados se tornam fragmentos acelerados de imagens dessa bonita reunião de amizades, a coisa toda fica bem pragmática, como que ansiando por um outro momento de peso. Aliás, essa é uma marca de “Embaixo da Luz de Neon”: uma predileção por articular momentos tristes e uma necessidade de transformar esse peso em experiência para o espectador de forma quase… maniqueísta.

O curioso é que não há necessidade disso. Estamos diante de uma pessoa que compreende perfeitamente que seus dias estão contados e que se mantém de pé com uma vontade de viver absolutamente impressionante. Logo, essa insistência em criar bolsões de peso durante a projeção é desnecessária e acaba criando momentos constrangedores ao longo do documentário.

Uma das questões mais funcionais do documentário é a procura em traçar o passado de Gibson, depressão e tentativas de suicídio, ao mesmo passo que desenvolve a história do relacionamento de Gibson e Megan Falley, um dos grandes motores do filme. Porém, ao mesmo tempo um desenvolvimento acerca do ativismo e da uma rede de apoio que se apresenta mais fragilizada no projeto, não enquanto individualidades e particularidades, mas por uma certa pressa da obra em ir para próximos tópicos e questões, como mencionado anteriormente. Não por acaso, ao traçar como objetivo essa apresentação, presente na reta final do projeto, “Embaixo da Luz de Neon” passa a se enveredar para uma ambígua relação entre a apresentação e a finitude da própria personagem, criando uma interessante camada de compreensão para o espectador, mas com um desenvolvimento que é inconstante em si.

Talvez a importância de suas temáticas, em um contexto de conservadorismo crescente, sejam importantes de constarem na premiação do Oscar, mas o filme é tão irregular no que se propõe e beira um maniqueísmo pouco casual, que deixa todo esse processo bastante cansativo e tensionando uma parcela dos espectadores à desistência iminente, aliás, rebobinar constantemente todos esses sentimentos, é quase que fazer uma breve reprise de intenções, que se torna desnecessário em cada momento. Além disso, a utilização do material de arquivo é tão programática, que só vale ser mencionada no desfecho da crítica, pois não salta os olhos e não fere sua integridade. Como o filme todo funciona.

2 Nota do Crítico 5 1

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