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Navalny

Operação Especial: Navalny

Por João Lanari Bo

Sundance 2022

Navalny

Navalny”, o documentário que o cineasta norte-americano Daniel Roher lançou na última edição do Festival de Sundance, é um petardo – a metáfora armamentista não é a mais adequada, à luz da guerra inconcebível que se trava na Ucrânia, mas pode ser útil exatamente para potencializar a metodologia de governança em uso no Kremlin. As revelações são estarrecedoras: Alexei Navalny, líder oposicionista russo, armado de um forte discurso populista alavancado pelo Youtube – foi vítima de uma tentativa torpe de envenenamento, no estilo que se fazia na corte de Ivã, o Terrível, nos anos gloriosos da unificação czarista, reproduzido à exaustão no século 20 de vigência comunista. Pois a FSB, herdeira da KGB e outras alcunhas, foi capaz de perpretar uma tentativa de assassinato na base do Novichoc, série de agentes químicos que a União Soviética e a Rússia desenvolveram entre 1971 e 1993, considerados os mais mortíferos de todos os tempos. Navalny viajava de avião no interior da Rússia, três agentes da FSB que o seguiam foram capazes de inseminar o veneno em suas roupas: a vítima começou a soltar gritos fortíssimos no fundo do avião, houve um detour emergencial em um aeroporto fora da rota e o opositor se salvou. Passados alguns dias, foi para Alemanha, com o beneplácito da então Primeira-Ministra Angela Merkel – e é nesse lapso de tempo, nas semanas de recuperação, que foi feita a maior parte das entrevistas do filme em tela, com familiares, assistentes, o próprio Navalny e …um personagem que provavelmente fez Putin perder o sono. Um jornalista investigativo búlgaro, bom de computador, rapidamente hackeou meia dúzia de agendas telefônicas, comparou com tickets aéreos e …bingo! Três agentes de um obscuro Instituto de Química em Moscou pegaram o mesmo avião, dormiram nos mesmos hotéis, em suma, colaram no alvo dia e noite até soltarem o pó assassino.

O leitor deve estar se perguntando: afinal, isto é um documentário, ou um thriller? Navalny em certo momento pede ao realizador para não fazer um “filme chato de memória”, como se ele já estivesse morto. Pelo contrário, quer um suspense político de tirar o fôlego, entretenimento-pipoca em que o público espera a sobrevivência do herói e nunca tenha motivos para vê-lo como mártir. Um thriller com um vilão a altura, que sói acontecer ser ninguém outro que o Presidente Putin. Sim, esse mesmo personagem que cometeu a façanha linguística de designar como “operação especial” a guerra deflagrada na Ucrânia, punindo com prisão os que contrariem a norma. Pois em “Navalny” assistimos o mesmo dispositivo em ação: o líder russo recusa-se a pronunciar a palavra “Navalny” nas coletivas de imprensa, utilizando retórica rasteira para responder perguntas, do tipo “essa pessoa que você citou”. Alexei Navalny acreditou que sua popularidade o salvaria de ser assassinado: a verdade, entretanto, parece ser que sua desaparição foi decidida no momento mesmo que seu nome se tornou impronunciável. Putin se tornou tão poderoso que imaginou ser possível matar Navalny – talvez porque ninguém jamais suporia que ele seria tão ousado a ponto de tentar. Questões como essa permeiam o doc-thriller, insolúvel e impenetrável como a personalidade do nosso vilão.

Tomei uma decisão. Pensei por um longo tempo e com muita dor. Hoje, no último dia do século que termina, renuncio. (…) Entendi que eu precisava fazer isso. A Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, com novos rostos, disse, em 31 de dezembro de 1999, o primeiro Presidente da Rússia, Boris Iéltsin. Na ocasião indicou como sucessor o então Primeiro-Ministro Vladimir Putin, um burocrata oriundo da KGB, nomeado em agosto de 1999, desconhecido do público. O grande feito de Putin tinha sido encarar, no mês seguinte à sua nomeação, em setembro de 1999, a terrível onda de ataques terroristas que explodiu prédios residenciais em três cidades, inclusive Moscou, matando mais de 300 pessoas, ferindo outras mil e espalhando uma onda de medo pelo país. Putin afirmou que os terroristas na Chechênia eram os culpados, ordenou uma campanha aérea maciça na região do norte do Cáucaso, e bradou: Desculpem-me por dizer isso: vamos pegá-los no banheiro. Vamos eliminá-los na latrina da casinha. Há quem afirme que esses “ataques” foram plantados por agentes da FSB – não teriam sido, portanto, obra dos chechenos. A névoa que ronda esta e outras ações, como a tentativa de assassinar Navalny, paira como obscuridade latente no núcleo decisório da Rússia moderna, país que dispõe do maior arsenal de artefatos nucleares do planeta.

Navalny” termina com a volta de Alexei para a Rússia, em janeiro de 2021 – e sua posterior condenação a nove anos de prisão, no último dia 22 de março, só potencializa essa obscuridade.

 

4 Nota do Crítico 5 1

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