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Em Um Bairro de Nova York

Em um bairro... & Nova Iorque

Por Vitor Velloso

Em Um Bairro de Nova York

“Em Um Bairro de Nova York” de Jon M. Chu é um produto que retoma o espírito lúdico que fundou a indústria hollywoodiana. O grande problema é que essa roupagem que o longa assume, de um profundo amor pelo bairro, de acontecimentos absurdos, coreografias estonteantes e por aí vai, é construída em torno de um dos piores cinismos do sonho norte-americano contemporâneo. Uma espécie de “culpa estadunidense”, que sempre abraça seus liberalismos, mas tenta compreender que o multiculturalismo presente em seu espaço, é fruto de um processo agressivo de sua idealização pela prosperidade burguesa. 

Tudo em “Em Um Bairro de Nova York” é falso. Assim como as desculpas esfarrapadas para que possamos abraçar a ideia de que ali é o lugar de nossos personagens, essa retomada constante do “desculpa pelo que fizemos”, é mais uma proposta eugenista da indústria de assimilar a idealização de uma “democracia racial”, ancorada em um bairro de Nova Iorque. A maldade é simples: a partir de uma hegemonia total da cultura do norte, introduzir diversos grupos étnicos que se encontram em prol do próprio bairro, para que essa comunhão seja fertilizante para o bem-estar. Relembrar o tempo todo das maldades de seu país, assumindo essa culpa moralista e cristã, só faz o barato todo ser ainda mais canalha. Tal como “Hamilton”, o elenco se rende ao ridículo para celebrar a prosperidade de uma sociedade imperialista que montou seu patrimônio nas dependências do mundo periférico. 

O EUA está longe de ser essa fantasia fajuta que os musicais celebram com tanto vigor e o suposto escapismo que é promovido por essa ideologia apenas reforça o esforço pela homologação cultural encontrado na representação cinematográfica. “Em Um Bairro de Nova York” persegue essa harmonia, mas esbarra em todos os conservadorismos da indústria, tentando achar o dinamismo social nesta resolução empreendedora, liberal. A própria forma denúncia a canalhice. Com seu ritmo acentuado e imagens idílicas, que são digressões da realidade, a coreografia é feita com a montagem, acreditando que esse tempo vai formalizando as “paisagens” do lugar. Na verdade, Hollywood não trabalha com espaços, sim com cartões postais que são deslocados para compreendermos a “marginalidade” das fotos do Instagram. A indústria utiliza dos próprios arquétipos para dizer “me perdoa por tudo, mas aqui somos felizes”, é o cúmulo do revisionismo histórico. Tal como “La, La, Land” e seu jazz de branco, o filme de Jon é uma ode à destruição categórica das origens de suas apropriações. Não por acaso, todos os personagens são estereótipos que a própria indústria fomentou no auge de seu reacionarismo e agora tentam uma reconciliação com essa representação unilateral. 

Essa “mea culpa” é a exposição de tudo. Quando uma personagem caminha pelas ruas de seu bairro, com um plano frontal, demonstrando sua tristeza por se sentir deslocada desse centro, luzes ofuscam o brilho ao fundo. Um plano sequência tenta abranger toda a cultura daquele local e a cantoria vai sendo construída no frenesi do coaching. A montagem tenta acompanhar o ritmo de suas coreografias, conduzindo o olhar do espectador para essa “complexidade” do cotidiano. Tudo de fato parece apenas um estúdio. Talvez a sequência que termina em luto até consiga gerar algum impacto visual, já que há uma metamorfose delirante no meio dessa falcatrua generalizada, mas é incapaz de salvar um barato de “capital aberto”, onde todos são verdadeiramente sócios do sonho da democracia racial e cultural desse setor do império. 

Ah, caso outro leitor decida discursar em torno das “políticas” e não da linguagem, cabe lembrar que não se explica como fazer bolo instantâneo. E “Em Um Bairro de Nova York” é um subproduto programático que segue à risca os padrões mercadológicos. A coreografia colorida em uma rua de estúdio estetizada, os planos gerais que mostram a grandiosidade dos movimentos, os detalhes para construir o ritmo da montagem, as atuações canastronas com sorriso no rosto de maneira quase irremediável, até um banho de hidrante com a câmera flutuante pelo cenário. Jon é tão hábil em tentar falsear o filme quanto o EUA possui uma harmonia cultural. Entra um no do outro e vê se eu tô na esquina da Curuçá. “Nosso povo” e “meu lugar é aqui” não parece muito lógico. 

1 Nota do Crítico 5 1

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