Elyse – A Coragem vem do Coração

Um desastre programático

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Após “Dois Papas” (2019) e “Meu Pai” (2020), Anthony Hopkins voltou a ser aplaudido por suas atuações e conseguiu ganhar seu segundo Oscar com o longa de Florian Zeller. “Elyse – A Coragem vem do Coração” é um de seus piores tombos na carreira. Dirigido por Stella Hopkins, uma das maiores bombas do ano chega ao streaming brasileiro mostrando que a melhora de qualidade há duas semanas era um delírio coletivo. Stella é esposa de Anthony, e essa informação é apenas para tentar entender o que levou o ator a participar do projeto. 

Partindo de uma propaganda da Boticário com plano de saúde, o monocromático inicial traz uma trilha sonora terrivelmente mal mixada, interpretações que nos leva ao devaneio paródico e diálogos que reforçam essa ideia. Sem nenhum tipo de exagero, parte do público tenta entender se tudo é uma farsa consciente ou nada está funcionando. A longa cena de um “jantar” na casa é de uma estupidez generalizada. A atuação de Lisa Pepper e Aaron Tucker não deve nada aos piores momentos de “The Room” (2003). O exagero de Pepper e a inexpressividade de Tucker possuem uma desarmonia impressionante. 

Quando fica claro que o filme possui um compromisso com a seriedade, as coisas ficam ainda mais severas. A direção de Stella tenta vender uma imagem de vida perfeita, nos padrões norte-americanos e apenas reforça uma ideia cultural que a indústria tratou de fundar ao longo de décadas. Apesar de monocromático, as luzes gritam a luxúria, a propriedade privada e a decadência do casamento, é o drama da burguesia estadunidense ,pautada nas aparências, se dissolvendo. 

“Elyse – A Coragem vem do Coração” parece ter saído de um pesadelo catalítico de Tommy Wiseau com o sabor artificial e espontâneo da “arthouse industrial”. Com “debates” seríssimos sobre Freud, Jung, relações familiares e saúde mental, Hopkins e Pepper se encaram em um consultório. A competição pela atuação mais canastrona é acirrada com seus olhares curiosos, frases de efeito programáticas e intelectualidade europeia de quinta categoria. E o centrismo cultural aqui dá lugar à ironia da expressão “círculo de tambores”, próximo a metade do filme. Stella é colombiana, mas aparentemente está convencida da superioridade imperialista e faz piada com “levamos ela de avião ao Peru, para rituais e círculo de tambores. Uma completa perda de tempo”. O psiquiatra ri ironicamente e pergunta “círculo de tambores?”. O desprezo é visível e essa postura canalha diante do sul global é uma característica basilar da indústria norte-americana, que só nos cita em duas ocasiões. Para tirar proveito ou falar mal. 

Mas como a nossa dependência é gravíssima, cá estamos nós discutindo mais um despejo brutal em nosso mercado. 

Se ao menos houvesse uma proposta de discussão das patologias psicossociais, haveria menos ofensas envolvidas. Mas “Elyse – A Coragem vem do Coração” é conservador, sabe disso e promove uma idealização dos próprios problemas. Um verdadeiro fetiche da condição para composição de uma estética enraizada no fatalismo burguês. Veja bem, depressão severa e borderline são problemas que devem ser amplamente debatidos no cinema, mas a representação que a obra faz disso é tão nociva, que ainda tira proveito para atacar as instituições públicas: “isso não é escolha de vocês e sim do Estado”, em um tom de imposição. O longa agride o sul, idolatra o capital privado, o estilo de vida norte-americano, utiliza-se de uma doença gravíssima para forçar uma estética fatalista… Mas tem o Anthony Hopkins e é Made in USA, dois centros importantes para garantir distribuição nos serviços de streaming dos países periféricos e dependentes. Como o título sugere, a moral cristã retorna com força total e novas representações da superação particular chegam às telas dos brasileiros. Se os fãs do Hopkins forem se aventurar em seu último projeto lançado no Brasil, boa sorte. Aturar Pepper e Tucker diante da câmera é um desafio para poucos. 

Trailer

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