Dois Papas

Futebol e Fanta

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Nos primeiros momentos de “Dois Papas” fica claro a despretensão do projeto, com piadas e um humor ácido, o longa vai se construindo como uma paródia política acerca da relação da Igreja católica com suas nomeações e como essas escolhas são reflexos dos dogmas pregados pela mesma há dois mil anos. Sem concretizar uma verve lúdica ou que flexibilize interpretações diversas acerca da visão do diretor, o filme vai se desenvolvendo em torno de Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) e seu pedido de aposentadoria ao Papa Bento XVI (Anthony Hopkins), assim, é fácil imaginar que a simplicidade é parte da estrutura narrativa. Essa concepção não se traduz apenas na dramaturgia, mas na própria linguagem aplicada.

O indicativo não se refere à fragilidade de como tudo é arquitetado, pelo contrário, o diretor brasileiro Fernando Meirelles faz uso dessa propícia superficialidade do texto para utilizar recursos que transmitam o peso do passado dos personagens anterior a vida na Igreja. De âmbito político e com forte apelo cristão, em sua visão do perdão e da penitência, o progresso da projeção expõe os traumas dos dois, costurando suas visões quase antagônicas dos rumos que a Igreja deve tomar. De um lado, o conservadorismo pungente de Bento XVI e a pressão midiática dos escândalos envolvendo os abusos infantis, do outro, um bispo argentino que recusa a pressão do título papal e luta por uma reforma na instituição, reconhecendo as mudanças no mundo desde a criação da mesma.

A forma que Meirelles encontra de sacramentar a postura estóica da Igreja é utilizando uma decupagem rigorosa que estrutura os planos de maneira simétrica, sempre com proporções e espaçamentos definidos. Por outro lado, compõe com leveza a mise-en-scène onde Bergoglio torna-se central. As intenções são claras, criar essa dualidade de mundos, mas relacionar isso com a própria vivência de cada um. Assim, a versatilidade do projeto em pontos formais e dramáticos não permite uma queda de ritmo do longa, permitindo que a experiência vindoura, que a Netflix oferece nas casas dos espectadores, seja instigante ainda que televisiva.

E fica claro, como o diretor trabalha já com esse formato, já que os close se intensificam ao longo dos diálogos, ele abusa dos zoom informais e tremidos para criar essa relação mais próximo com o público etc. A escolha não poderia ser mais acertada, já que apesar de grandes atores e uma história que trás um sentimento multilateral de uma discussão polêmica, “Dois Papas” passa um sentimento brevemente canastrão de tudo isso, ainda que haja um certo apelo dramático em alguns flashbacks que afeta gravemente o ritmo, Pryce assume isso em sua atuação, desconstruindo o peso da batina em piadas constantes e assobiando “Dancing Queen” pelo Vaticano. Já Hopkins consolida essa postura européia mais fria e rígida, com pouca flexibilidade no discurso, mas reconhece isso como uma característica de seu país. Seu vício por Fanta laranja é apresentado com dramaticidade composta por Meirelles, o que provoca risadas espontâneas na audiência.

Toda essa dicotomia entre os bispos, vindouros papas, é a base da forma e do drama que vai ganhar força conforme avança em sua proposta, já que a relação política entre eles vira um palco de reflexão por parte das medidas políticas, ideológicas e dogmáticas da Igreja, conferindo ao texto um debate concreto entre as argumentações de ambos. Neste ponto “Dois Papas” não se omite da discussão, claramente inclinado às questões latino-americanos, utiliza deste regionalismo e da evolução da sociedade em minimizar os preconceitos, o diretor vai de encontro ao que a instituição milenar propõe, atravessando sem freio todas as pautas arcaicas que a mesma defende. Nestes momentos o cineasta demonstra um impulso firme diante de polêmicas contemporâneas criadas pelo reacionarismo contundente de uma parcela que parou no tempo.

“Dois Papas” é uma bela surpresa que assume um novelão versátil de uma adaptação de peça teatral, enquanto trabalha as relações políticas, e públicas, latino-americanas em uma realidade contemporânea que infelizmente diz respeito a nós. Acertando com vigor o formato de exibição e a proposta formal de um texto com verve corajosa e de paródia.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *