Eles Transportam a Morte

Memórias históricas e o transe

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de SP 2021

Como parte das obras no catálogo da 45ª Mostra de SP, “Eles Transportam a Morte” tinha um problema na sincronia da legenda de mais de 10 segundos, fazendo com que a experiência fosse gravemente comprometida, já que para cada diálogo na cena, o espectador deveria lembrar do texto exibido anteriormente. De toda forma, o filme de Samuel M. Salgado e Helena Girón é uma obra pouco particular na produção independente contemporânea. Por mais que possua alguns méritos na tentativa de caracterizar 1492 a partir dos marginais relegados ao esquecimento, figuras com propósitos esquecidos, à beira da morte.

A narrativa aqui se divide em duas frentes, a dos homens procurando sobrevivência na Ilha Canárias e da mulher que tenta salvar sua irmã. Nenhuma é particularmente interessante e que pode chamar atenção para o espectador são as tentativas experimentais de contar essa história através da fatalidade, do tempo e de uma história carregada pelo que o título expõe. as próprias experimentações não são exatamente originais, em diversos momentos é possível lembrar alguns planos de “1048 Luas”, exibido no Festival Ecrã, em outros o estoicismo é um imperativo que procura uma estética que sintetize as esperas e permanências dessa morte como um fardo do colonialismo. De uma forma ou de outra, o tédio é inevitável e por mais que um plano ou outro consiga chamar atenção, a exemplo do sonho com os rostos borrados, pouca coisa funciona para além do pragmatismo fatalista de “Eles Transportam a Morte”. O sintoma histórico do cinema europeu é recair nas reflexões interiores da morte, partindo de um formalismo inócuo para encontrar uma reflexão nessas imagens que “se conectam”. É o beco sem saída que eles se meteram há décadas e que o cinema latino-americano está tentando reconstruir aos moldes particulares, erro grave que está levando à falta do debate e a ascensão dos estruturalismos múltiplos que vemos por aí. As comparações vagas, as analogias rasteiras que chegam a lugar algum ou mesmo as incertezas. O realismo fantástico sofre gravemente com essa ideologia do deslocamento, já que a gênese material deu lugar à fugacidade da histeria burguesa.

Mas se alguma coisa funciona na curta projeção do longa, não é exatamente pelas experimentações, muito menos pela ausência de discussão com relação à exposição desse passado representado pela margem, mas por procurar uma relação histórica dessas figuras com a morte em si. Ou seja, é uma espécie de maldição que leva ao delírio, seja rindo sem parar após notar a miserável realidade diante das figuras históricas, ou mesmo de julgar as atitudes dos outros diante da morte. Nesse jogo, algumas encenações funcionam bem, por uma espécie de material de arquivo que remonta o período com o rigor da tradição cinematográfica, como nas cenas que mostram os trabalhadores no barco. No geral, a memória é como uma política do esquecimento, escanteando seus personagens e reforçando na série de perguntas feitas pela mulher que sempre recebe a resposta de “Não lembro”.

A produção da Espanha e da Colômbia, mostra que a transa formal do cinema proposto pelos dois países gera um imbróglio cultural na própria formalização das ideais, idealizando a morte em última instância. Uma espécie de mea culpa com denúncia histórica, que focaliza as ações dessas figuras moribundas, que parecem guiadas pela ideologia inerente à época, curiosamente, não tão distinta da de hoje. “Eles Transportam a Morte” é mais um filme que aposta no caráter estético para supor uma questão particular, quem sabe provocar alguma discussão exterior à própria obra, mas é mais inócuo que parece e tão fetichista quanto propõe suas próprias imagens.

Como a experiência foi gravemente influenciada por conta do problema na legenda, pode ser que uma projeção na sala de cinema com a capacidade de assistir o filme sem uma interferência tão aguda, mude um pouco a perspectiva de um filme que tem alguns méritos, mas falha no desenvolvimento da estrutura narrativa.

Trailer

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