El Camino

Pilotando um Mini-Spin Off

Por Jorge Cruz

El Camino: A Breaking Bad Film” tenta pagar uma dívida de gratidão em mão dupla da série “Breaking Bad” e do serviço de streaming / produtora de conteúdo Netflix. Dois fenômenos do início da década que serviram de muleta um do outro. As primeiras temporadas do seriado, por sinal irretocáveis, não foram tão calorosamente recebidas pelo público à época de seu lançamento quanto as seguintes. Apontar a Netflix como grande responsável, além de soar exagerado, tiraria parte do mérito artístico do programa, pensado como um grande filme e executado sem demonstrar influência do apelo popular, fiel às suas intenções.

Quando nos despedimos de Walter White (Bryan Cranston, indicado ao Oscar por “Trumbo – Lista Negra”) em 2013, estava inaugurado o período de rumores sobre formas de perpetuar o sucesso de “Breaking Bad”. Menos de dois anos depois ia ao ar a excelente série “Better Call Saul”, que consolidou o sucesso de Bob Odenkirk no papel de Saul Goodman / Jimmy McGill. Esse show acaba de encerrar sua quarta temporada, com mais uma confirmada. Toda a recriação do, agora, protagonista atestou a qualidade do trabalho de seu criador Vince Gilligan, que também roteiriza e dirige “El Camino”.

A parábola sobre ambição por poder e dinheiro, tão bem construída e executada com primor na série de origem, se revela um potente material na mão dos realizadores do longa-metragem. O respeito pelas convenções empregadas pelo programa de TV ultrapassa o arcabouço narrativo e replica toda a vicissitude estética que tanto encantou o olhar do público em “Breaking Bad”. O tom artístico que gerou a comoção da crítica no produto original rende bons momentos em “El Camino”, mesmo que de forma espaçada para uma obra de duas horas de duração.

Vale destacar dois exemplos dessa maneira acurada de empregar as ferramentas do cinema que ocorrem no primeiro ato. O primeiro se dá quando uma sequência dentro de um ferro-velho se inicia e Gilligan opta por nos ambientar a partir de uma câmera presa a um guindaste em movimento, uma forma que mesmo não sendo usual, não provoca qualquer estranhamento ao espectador que consumiu as mais de sessenta horas de “Breaking Bad”. O segundo acontece em um diálogo entre Jessie (Aaron Paul), Badger (Matt Jones) e Skinny (Charles Baker). Eles estão posicionados na lateral de um carro, mas a câmera está presa no centro do capô do veículo. Em primeiro plano, o objeto da discussão dos personagens, que ficam quase fora de enquadramento – como se a ilustração da conversa se aliasse ao diálogo em si.

Por sinal, o uso de coisas em primeiro plano e pessoas em segundo é uma constante no filme. Talvez por isso essa maneira tão eficiente de se contar muito por imagens transforme o tempo de duração da obra ainda mais ininteligível. Vale perceber como o cineasta brinca a todo o tempo com o enquadramento contra-plongée (aquele em que a câmera fica abaixo do nível dos olhos, voltada para cima). Ao longo de todo o primeiro ato, seguindo a cartilha da Tia Maricota do primeiro período de Cinema, o olhar da câmera nos mostra Jessie a todo momento a partir dessa visão. Nas duas linhas do tempo que demarcam o roteiro, portanto, ele está extremamente vulnerável. Todavia, no momento em que o protagonista inverte essa vulnerabilidade em uma interação com Todd (Jesse Plemons), a câmera automaticamente acompanha esse posicionamento, tornando desnecessária qualquer alteração de iluminação, trilha ou até mesmo na interpretação dos atores em cena, como que para demarcar essa transformação. O diretor faz isso usando apenas a posição da câmera.

Ocorre que todo esse jogo de Gilligan acaba consumindo boa parte do ato intermediário de “El Camino”. Um texto que se propõe a traçar um arco para Jessie muito parecido ao de Walter White ao longo das cinco temporadas da série. A partir de dois momentos de crise distintos, ele passeia da incredulidade à reatividade, alcançando a dureza do homem que não teme mais nada, nem a própria morte. A interpretação de Aaron Paul, de fato, contempla todo o caminhar de seu personagem. Curioso concluir que Jessie Pinkman, criado em ambiente tão hostil quanto Walter White, abdique do sadismo que tomou conta do seu mentor, deixando de seguir a última persona do parceiro de crimes.

A questão é que nem só de tanta inventividade artística em comunhão com espelhamento de personalidades e situações vive uma obra cinematográfica. Apesar da parcimônia no uso do elemento saudosismo na inserção dos clássicos personagens, como Mike (Jonathan Banks), Jane (Krysten Ritter) e o próprio Walter White, a autonomia do longa-metragem resta prejudicada. Não que a exigência de conhecer o passado de Jessie gere incômodo a quem eventualmente se pegue assistindo “El Camino” sem as informações prévias. Pelo contrário, é possível chegar quase à mesma conclusão: o de anulação de sensações.

A maneira com a qual a história é conduzida, beirando a indecisão acerca do seu objetivo, provoca essa receptividade morna. A trama nunca parece, de fato, ganhar corpo. Incursões de seriados com bem menos qualidade que “El Camino” não pecam pelo erro básico de não entreter: de “Os Simpsons – O Filme” até “Sex and the City – O Filme”. Gilligan parece querer mais documentar do que movimentar nossas mentes, sendo essa talvez a grande diferença entre a brilhante série e o genérico longa-metragem.

Nos seus momentos mais inspirados, o filme nos faz lamentar ainda mais o que ele poderia ter sido. A longa cena na loja de Ed (Robert Forster) é o ponto alto dessa produção. Aquela criação funciona quase como um curta-metragem de tão dissonante do que lhe antecede e sucede. O clímax como grande momento de tensão e ação de “El Camino” talvez chegue perto. Já o epílogo revisitando, de fato, o Jessie Pinkman de “Breaking Bad”, além de nos brindar com um pouco de Bryan Cranston ousa colocar um pouco de debate sobre os temas que fundam aquela parábola que angariou tantos fãs. É de se lamentar que, mesmo com tanta qualidade na execução das cenas, a anulação de sensações já mencionada faça de “El Camino” uma espécie de piloto de spin-off desinteressante o suficiente para durar apenas duas horas.

 

 

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