Onde os fracos não têm vez

Por Fabricio Duque

Exibição Streaming Netflix


Uma das consequências do mundo em que vivemos é a naturalidade intrínseca de se ocupar espaços com oportunidades e criativas ideias. E a arte cinematográfica não conseguiria, nunca, permanecer com vazios. A regra é clara: se o dinheiro não aparece de um jeito, acontece de outro, principalmente no universo das indústrias Hollywoodianas. O caso da vez é sobre o canal de streaming, se por um lado estimula a permanência do público em casa, à frente da televisão, do outro permite a liberdade dos próprios filmes de se conservar a veia artística das características marcantes de seus diretores.

Como na finalização da última obra de Orson Welles; “Roma”, de Afonso Cuarón, que venceu o Festival de Veneza deste ano, e o longa-metragem, em foco aqui, “The Ballad of Buster Struggs”, dos Irmãos Coen, Joel e Ethan, conhecidos por “Fargo”, e por dissimular a narrativa com um humor que desnuda a hipocrisia fraca com grosseria distinta dos comportamentos sociais, adentrando na época mais primitiva das relações humanas: o Velho Oeste, uma terra sem lei, sem moralidades e sem sensibilidades politicamente corretas.

Os irmãos Joel e Ethan Coen idealizam uma antologia faroeste em seis segmentos focada na fronteira americana. Acompanhando pistoleiros cantores, colonizadores, mineiros, homens condenados à forca, caçadores de recompensa e todo tipo de personalidade do Velho Oeste, estes seis contos curtos vão da mais profunda reflexão até o mais completo absurdo.

O filme é um conto de fadas para adultos de Jack London. Uma antologia de seis histórias (iniciadas e finalizadas com páginas de um livro de histórias), também exibido na edição setenta e cinco do Festival de Veneza, é construído por esquetes corais, em que tramas são autossuficientes com início, meio e fim, como parábolas histórico-sociais, em tom moderno e debochadamente circense, quase alegóricas, propositadamente uma comédia pastelão que se conduz pela violência nua e crua.

“The Ballad of Buster Struggs” corrobora as marcas da filmografia dos sarcásticos diretores: a conversa estendida em diálogos banais (que vão do artificial a construção das personalidades das personagens), a atmosfera surreal-absurda, porém crível, tudo é uma grande zoação ao indivíduo enquanto ser social, que se torna o inferno aos outros e inclusive a si mesmo. O segmento “The Gal Who Got Rattled” foi baseado no conto de Stewart Edward White. E “All Gold Canyon”, no livro de Jack London.

O longa-metragem inicia-se com o protagonista do primeiro episódio narrando a própria história para a câmera sobre sua “falta de sorte” de não pedir a contagem em duelos de armas. Segue-se com o extra da sorte. Sim, é um filme sobre sobreviver a um mundo agressivamente hostil, em que tudo é resolvido na bala, como o “desbravador” do ouro que destrói o habitat natural ao próprio prazer e necessidade.

“As histórias foram colocadas em uma gaveta, porque eram filmes curtos e nós não sabíamos o que fazer? Nós provavelmente não esperávamos fazê-los até oito ou dez anos atrás, quando começamos a pensar: Bem, talvez possamos fazer isso. Mesmo que os contos fossem completamente diferentes em termos de humor e tema, e até mesmo genericamente dentro do tipo de ideia frouxa dos ocidentais, eles eram vagamente sobre a mesma coisa e nós pensamos que seria interessante colocá-los todos juntos Ninguém mais faz esse tipo de coisa, filmes antológicos, e achamos que seria divertido trazê-lo de volta”, disse os diretores na coletiva de imprensa em Veneza.

“The Ballad of Buster Struggs” tem musical pastelão, tem enforcamentos, tem sequestros, tem duelos indígenas, tem casamentos arranjados, tem carnificinas, tem vinganças, tem falsas pistas, tem tentativas de assalto, tem apresentações solitárias de um poeta sem braços e sem pernas. Tudo é sobre a morbidez de se viver em um mundo incompatível. É sobre a crueldade da sobrevivência. Sobre uma época selvagem onde só os “fracos não têm vez”. Só os fortes conseguem transpassar.

É também um filme de atores em papéis feitos para brilhar, entre tantos e conhecidos temos Tim Blake NelsonJames FrancoLiam Neeson, nas transgressões excêntricas de característicos estereótipos reais. É uma obra de muitos sentimentos. O espectador adentra em emoções únicas, particulares e intimistas dessas histórias que têm a violência como ligação. Não há como negar, “The Ballad of Buster Struggs” reúne maestrias adquiridas, pinceladas em brilhantes esquetes analíticas e antropológicas da condição humana perante uma sociedade em desenvolvimento, em um que viagem do seriado “Westworld”.

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