#eagoraoque

Eu preciso tomar uma atitude

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

A Mostra Vertentes da Criação, chega com o novo trabalho de Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald. Um documentário que se esforça para compreender erros da esquerda brasileira, seja na comunicação, organização, contradições, composição de ideias e articulação da práxis. “#eagoraoque” chega para problematizar e fazer uma autocrítica, mas acaba cedendo para um primarismo ideológico que repete as próprias críticas na forma cinematográfica. Vladimir Safatle ridicularizando-se para concretizar um intelectual de esquerda e suas contradições, sendo travado pelo discurso periférico etc, é uma narrativa construída a partir da linguagem que essa mesma esquerda que se esconde nos extensos currículos, formalizou nos últimos anos.

Ainda que o longa procurasse uma ironia iniciada no título e encontrasse expressão nessa fórmula, o trabalho vislumbra alguns tons performáticos que unidos à registros políticos, cadenciam um barato pouquíssimo funcional. A cena de Bernardet levantando a blusa para mostrar cicatrizes é no mínimo… constrangedora. Safatle dialogando com sua filha, que em outro momento canta em inglês, não fica para trás. Contudo, as ideias não possuem a inocuidade lacrativa de outras obras, são elaboradas a partir das contradições de um setor da esquerda brasileira que a partir de sua classe burguesa são incapazes de promover uma articulação sólida. Neste mesmo campo, o espírito saudosista de uma “esquerda que foi trucidada pela ditadura” aparece como uma vertente recorrente da política brasileira. E não faltam figuras e filmes que colaborem com esse estereótipo.

Mas ainda que “#eagoraoque” possua ideias e reconheça esses erros da esquerda, caminha na contramão da dialética e abraça um espírito não-totalizante que desarticula seu propenso materialismo, pois cria apresentações expositivas para classes, gêneros e raças como quem cataloga parte do mosaico da cultura brasileira. E esse jogo de representações, está sempre confinado ao raquitismo intelectual, ao tom fálico comum da discussão da linguagem/comunicação. A postura apenas fortalece que a performance diante da objetiva, com intuitos ideológicos que não se encontram na práxis, ficam em suspensão para dar lugar ao racionalismo humanista esteticista de uma montagem que está sempre à procura dos recortes, findando em uma capilarização pragmática e programática.

O trecho que possui a presença de Lincoln Péricles parece urgir para o início dos créditos finais, pois o embaraço gerado por toda sua construção anterior é tão grande que o único sentimento é de estarmos em uma plenária para saber quem possui o ego maior, o intelectual burguês decadente ou o saudosista que não encontra mais espaço no mundo e tenta passar os “ensinamentos” da organização.

É claro que parte da esquerda brasileira segue o sonho de uma Revolução a partir da guerrilha. Outros de uma necessidade de aliança com a burguesia. Ainda há os que creditam à cultura o princípio basilar. Uma ala mais liberal se aproxima dos eixos democráticos e fazem concessões. Em resumo, essa fragmentação política que não encontram denominador comum, passaram a aliar-se as discussões do corpo político, uma luta que foi amplamente assimilada pela indústria neoliberal e segue propagando-se como base consensual de discursos reformistas. Vale lembrar que o consenso é a base principal para o fascismo. Pasolini disse isso. É uma homologação cultural que não se concretiza enquanto houver regionalismo cultural, porém até o momento que a Xuxa irá assassinar o Saci Pererê (Gilberto Felisberto Vasconcellos), não será possível formalizar tal homologação. Porém, esse consenso se fez nas figuras que representam a esquerda brasileira, há anos. Não à toa, encontram-se em um beco sem saída que o cinema mantém-se estagnado e só encontrará fuga enquanto houverem mais Lincoln Péricles, Glenda Nincácio e Ary Rosa, Diego Paulino etc.

Desta forma, “#eagoraoque” é a continuidade de um processo frágil que foi implementado nas produções brasileiras recentes. O corpo político é assunto de classe, gênero e raça, não da burguesia liberal que discute a propriedade desse corpo a partir de um movimento político que favorecerá suas leituras de cabeceira. O próprio filme representa essa eternização de um movimento político que apenas propaga seus direitos e interesses de classe. E Tiradentes não parece encontrar um representante para “Vertentes da Criação” além dos dispositivos que vemos todos os anos.

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