Dois Estranhos

A recepção e um retrato ambíguo

Por Vitor Velloso

Netflix

“Dois Estranhos” de Travon Free e Martin Desmond Roe, curta-metragem da Netflix, vencedor do Oscar de melhor curta-metragem na edição de 2021, é uma obra que incomoda e desestabiliza o espectador por razões dúbias. A narrativa é simples mas desafia o público com as múltiplas cenas de violência que se acumulam de maneira “gratuita”.

A diretriz é mostrar como a polícia norte-americana intenciona a morte da população negra em um claro genocídio amparado pelo Estado. Não importa o que o protagonista faça, ele morre em uma ação covarde de um policial racista. A estrutura do filme é de denúncia constante às vítimas diárias desse extermínio institucionalizado. Em cada uma das sequências uma nova série de referências reais ganha corpo e a de George Floyd abre esse martírio. Essa construção possui uma consciência dos desdobramentos dramáticos que impõem ao protagonista e sua relação não apenas com a morte, mas com a figura do policial em si. 

A partir desse seguimento, o espectador é levado à diversos caminhos onde a interpretação dessa narrativa passa por sustos constantes, desde uma possível reconciliação dos dois personagens à aceitação do massacre como uma questão cultural que ele deve enfrentar, mesmo que não entendendo como. A falta de resolução direta para a trama em “Dois Estranhos” acaba demonstrando que esse diagnóstico levantado pelo filme, problematiza algumas das maneiras que o país buscou de cessar, ou minimizar, a perseguição. Consegue criar um incômodo exponente com suas reverberações históricas, em um espaço demarcado pela própria trajetória que o protagonista não consegue fazer. O confinamento é esse martírio que o impossibilita de ir e vir, para ir de encontro ao seu cachorro. Um simples ato de fumar um cigarro na calçada, vira motivo para assassiná-lo. Andar em linha reta, leva à sua morte. Conversar com o policial, traz outros policiais. Permanecer na casa, uma invasão. 

Em cada canto há opressão, morte e violência que o protagonista busca evitar. Se a resolução não aparece, a denúncia nos créditos finais serve como um escrito de cansaço diante de uma sociedade e força policial que possui alvos estritamente marcados. Dito isso… Até onde vai a exploração e o oportunismo de uma tragédia real para fomentar um produto que irá competir na premiação que conhecemos bem? Acho que a recepção dividida diz por si. A exposição dos diálogos é uma marca institucional que o filme terá de lidar. 

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