DAU. Degeneração

O "novo homem soviético"

Por João Lanari Bo

Festival de Berlim 2020

Imagine o leitor um colossal projeto de reality show, um parque de piscinas abandonado em Carcóvia (Ucrânia) transformado em simulacro de instituto científico, onde não havia câmeras escondidas, apenas um único diretor de fotografia com uma portátil 35 mm e três assistentes. Uma irritante luz chapada, repetida à exaustão nos vários cenários e na cenografia reality de objetos e figurinos stalinistas, figurantes, atores não-profissionais, com roupas (até roupas íntimas), estilos de cabelo, bebidas, marcas de cigarro, dinheiro (rublos de época), tudo remetendo obsessivamente ao mundo soviético, a partir de 1938 quando Stalin estava no ápice do poder – e aterrissando na era Brejnev, 1968, ano da invasão de Praga. Nesse ambiente claustrofóbico foram gravadas entre 2009 e 2011 cerca de 700 horas de imagens e 4 mil de áudio, interações e iterações, e dois longas lançados em 2020, “DAU. Natasha” e “DAU. Degeneração”, este com mais de 6 horas de duração.

Ilya Khrzhanovskiy convenceu os patrocinadores a financiar o projeto e dar-lhe o controle criativo completo com base em seu premiado filme, “4”, que dirigiu em 2004. Mas o projeto que começou a filmar na Ucrânia, em 2009, rapidamente se tornou um experimento cultural, para o qual foi construído uma espécie de fac-símile operacional da vida na URSS, concentrada em um instituto de pesquisa, em princípio um local nobre na vida soviética. O projeto previa que os atores vivessem permanentemente na instalação, às vezes por anos, registrando cada movimento deles. O cenário – ou o Instituto, como foi apelidado pela produção – recebeu a alcunha na imprensa de “o show soviético de Truman”.

No início era apenas um biopic sobre Lev Landau, cientista brilhante que dá nome ao projeto, efetivamente diretor nos anos 30 um instituto de pesquisa na Ucrânia, adepto do amor livre e preso por um ano em 1937 pela coautoria de um panfleto acusando Stalin de “fascista”, apodo de proporções tectônicas naquelas latitudes. Ele escapou do GULAG graças a uma carta que Pyotr Kapitsa, outro cientista de renome, enviou a Stalin, na qual atestou pessoalmente o comportamento de Landau, obtendo sua libertação (ambos foram fundamentais para a produção da bomba de hidrogênio soviética). Ao longo de sua vida, Landau permaneceu uma pessoa de imensa liberdade interior e honestidade, um espírito livre e pensador independente.

Em “DAU. Degeneração”, Landau envelhecido ocupa um não-centro, uma eminência parda muda e sorridente. O cientista, de fato, teve um acidente grave em 1962, passou os últimos anos afastado das pesquisas e fazendo piadas. Na narrativa policêntrica do filme, uma espécie de espiral com vários centros, Dau, como era carinhosamente chamado pelos pares e alunos, assiste a reuniões e expiações constrangedoras, e sucumbe como um fio-terra desencapado ao lado da esposa, única atriz profissional do projeto.

Sua presença numa das reuniões corrobora a derrubada do diretor-devasso pelo diretor-militar, que introduz nova ordem no instituto baseada em delações forçadas e penitências públicas. O jogo de poder entre classes – cientistas contra garçonetes, cozinheiros contra burocratas, informantes contra estudantes – é dramatizado inicialmente na cantina do estabelecimento, regado a vinho e vodka, em conversas que evoluem rapidamente para os apartamentos comunais, com desatinos, altercações e insinuações etílico-sexuais. O diretor-militar – dotado de um olhar estúpido e inquisidor, um tipo físico formidável, tórax desproporcional e cabeça diminuta – não hesita em articular perseguições moralizantes de estudantes e pesquisadores boêmios, promovendo interrogatórios no modus operandi da polícia secreta stalinista, com direito a tortura psicológica e chantagens profissionais.

Da metade para o fim de “DAU. Degeneração” irrompem no reality show rapazes atléticos do Comsomol (organização juvenil do Partido Comunista) para servir de cobaias aos experimentos genéticos/eugênicos ligados ao “novo homem soviético”, imiscuindo-se na rotina de eventos do instituto: um deles, líder raivoso, mantém relações sexuais (explícitas no filme) com uma estudante e uma garçonete. O grupo, na realidade recrutado pela produção em um bando contemporâneo de neo-nazis na Ucrânia, recebe um inesperado empoderamento do diretor-militar, que tenciona cooptar os atletas para sua rede de vigilância e extorsão. O tiro saiu pela culatra: movidos por ímpetos de violência autocrata e ódio à corrosão moral dos intelectuais, os rapazes entornam o caldo e implodem o instituto-reality-stalinista. Degeneração precipitada, como se a genética saísse do controle.

Game over para o Instituto. Não é coincidência que o projeto DAU abrigou-se em território ucraniano (a pós-produção foi em Londres). O projeto remete à época de opressão imperialista na Ucrânia, com a Rússia como potência ocupante: as recentes crises entre os dois países – anexação da península da Crimeia pelos russos, que também apoiaram a milícia separatista da república de Donetsk – indicam a permanência da fricção e continuam sem desenlace, apesar da pressão internacional sobre Moscou.

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