Curral

A consciências e os cabos

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2020

A política brasileira é um antro demagogo e tacanho, com representantes fálicos, homofóbicos, corruptos e de um amadorismo, intencional ou não, únicos. E “Curral” de Marcelo Brennand é uma obra que busca compreender algumas dessas relações políticas, sociais e econômicas a partir de eleições para vereador em uma cidade do interior e todas as atividades ilegais e antiéticas que estão ali envolvidas. 

Em um primeiro momento, o filme faz um papel absolutamente didático em torno dessas questões, sem recorrer à maneirismos formais. É uma obra que não está disposta a tornar a digressão na linguagem uma reverberação para a dialética, a mesma estará presente a partir da estrutura dramática que é apresentada. A decisão é consciente e eficiente enquanto leitura de uma realidade material, onde desvios imediatos poderiam atravessar a leitura pragmática criar uma deturpação de discurso. Por isso o filme é tão funcional a partir de suas discussões, pois não cede espaço para distanciamentos outros que não seu eixo primordial. Assim, o longa desempenha seu didatismo a partir de um olhar crítico em torno do subdesenvolvimento brasileiro e suas relações com o âmbito político. 

As eleições regionais são os verdadeiros calvários monumentais da sociedade brasileira, basta olharmos para os debates, propostas e as compras de votos. E “Curral” consegue perpassar sobre os problemas que norteiam a verve peçonhenta da burguesia, não à toa, abre críticas possíveis ao posicionamento de seu protagonista, interpretado por Thomas Aquino. O personagem se torna bode expiatório da transição no discurso burguês ao povo, do particular/privado à sociedade necessitada. Mas sem criar concessões para tal, o espectador entende as motivações de Caixa e não vulgariza todo o processo. Exceto nos últimos minutos onde a Revolução Particular é dada através de uma sabotagem um tanto tacanha, vulgar, para dizer o mínimo. Não à toa, o fim do longa lembra “O Olho e a Faca”, com finalmente igualmente vulgarizado pela relação íntima com a figura única, totalizante, do pragmatismo fracasso. Da decadência da moral burguesa. 

Mas ainda com o final fragilizado, o filme se organiza de maneira muito sólida durante toda sua exibição, tendo pontos absolutamente sólidos neste período. Sempre recorrendo à objetividade da linguagem, sem tornar o processo simples. Algumas propostas acabam cedendo à estrutura pragmática e pré-definida, como a discussão com a câmera girando ao redor dos personagens, algumas cenas que poderiam ser exemplificadas com uma construção menos expositiva (como a relação com o garoto), mas em geral o projeto se articula em torno dessa proposta sólida de apresentar uma realidade em torno da ficcionalização, porém não se ater ao olhar alienante. O que já difere “Curral” de grande parte das produções brasileiras contemporâneas, que abraçam em absoluto o discurso pragmático da burguesia como o norte comprometedor do longa. Aqui, isso acontece nos minutos finais, como dito, por uma necessidade de tornar um evento essa catarse à la Kléber Mendonça Filho. Fácil, digestiva e impulsionadora. 

Infelizmente o desfecho é apelativo e conta com uma vulgarização pouco eficaz de sua construção geral, mas o longa merece destaque na Mostra de São Paulo 2020. Méritos próprios que reforçam a condição do cinema brasileiro em conseguir ampliar o debate da política para si, de forma minimamente coerente com seus posicionamentos, tornando o processo mais acessível que normalmente vemos (os retratos do conservadorismo nas pequenas coisas) e toda uma retratação a partir do imaginário convencional dos “currais eleitorais” que se torna muito profícua conforme sua progressão. 

Ainda assim, é possível perceber que a maioria dos críticos de cinema estão se debruçando nos filmes europeus, norte-americanos e asiáticos. Claro, suas preferências classistas forçam a permissão ao tempo disponível. Por conta de atitudes como esta, “Currais” passou em branco em Tiradentes, “Cabeça de Nêgo” também ficou aquém do que deveria. “Sertânia” possui parte da linguagem que lhes agrada, claro, falaram bastante. Espero que os adoradores de Kléber possam ao menos dar chance ao longa pela presença de Thomas, e que isso garanta uma distribuição digna para um filme que não é um marco, nem mesmo um monumento, mas é importante, consciente e não-alienante. 

As breves presenças de Dumont em tela, com Thomas, nos lembram que o cinema brasileiro possui uma qualidade única com seus atores.

Trailer

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