O Olho e a Faca | Crítica

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Condução coercitiva de urgência a auto-imersão

Por Fabricio Duque

Em seu terceiro longa-metragem, “O Olho e a Faca” (2018), segundo filme de ficção, o diretor paulista Paulo Sacramento segue com seu cinema de urgência, retirando suas personagens de suas zonas de conforto e as desmoronando completamente, para assim acordá-las do “mar bom é mar calmo”.

Exibido no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado, “O Olho e a Faca” apresenta-se por uma sensorial ambiência de contemplações de instantes, com moldes de ficção científica, pela presença marcante da personificação das máquinas e dos ruídos condutores, que arquitetam ritmo e conexão, entre o aguentar e o sentir o “chão arenoso”.

É um filme que acontece pelo tom existencialista, de fora para dentro, quando o cotidiano-meio potencializa a progressão imediatista do ser humano, o transformando e o padronizando em um “fio de prumo”. Aqui é sobre a libertação dessas certezas absolutas.

Mas a narrativa que leva trinta minutos para construir um tempo espontâneo de imersão dentro de uma plataforma de uma empresa de petróleo com suas rotinas de brincadeiras-trotes cúmplices, perde equilíbrio quando a terra firme chega e a hora de voltar à vida real, perdendo o controle em crises emocionais e colocando tudo por água abaixo de forma corrida demais.

Esse retorno transforma a modulação, desaguando nos elementos estruturais mais próximos de uma novela: mais forçado e palatável quando se tenta traduzir toda a autoralidade conceitual em artifícios cênicos mastigados; e auto-explicativos com seus flashbacks recentes em narração em voz-off.

Cada um ali no trabalho ilhado, com água por todos os lados, encontra a plenitude da paz. É um refúgio. Um lugar de diversão com os amigos sem as obrigações familiares. Que pode ser facilmente destruído pela tentação de se ambicionar a patamares altos. “Companheiro é questão de ocasião”, aprende-se com essa frase que promoção é sinal de solidão, de manter o “patamar de excelência” a qualquer custo, “hora dos ajustes e das decisões” e o começo derradeiro de transformar “fatalidades em cagadas”.

“O Olho e a Faca” é uma sucessão de metáforas. De reaprender a olhar e a diferença com a faca, um objeto inanimado sem vida, que depende dos ouros para se tornar útil. Assim como em seu filme anterior “RioCorrente”, o roteiro, também escrito pelo diretor junto com Eduardo Benaim, quer “o encontro do caos externo com o nosso caos interno”. Quer a explícita percepção da “Demência”, do cineasta gaúcho Carlos Reichenbach, sempre homenageado por Paulo. E ou a “Tônica Dominante”, de Lina Chamie.

O longa-metragem é uma análise crítica da atividade laboral pelo viés focal de um intimista e pessoal estudo de caso. Se antes o protagonista (interpretado de modo irretocável e preciso pelo ator Rodrigo Lombardi) sentia-se no mundo mágico de “Alice no País das Maravilhas”, como um Amyr Klink liberto no mundo marítimo, agora o confronto com a mudança é inevitável.

O olhar condicionado a uma futilidade contínua descamba às quedas. O desestímulo, a desmantelamento da família, as consequências dos filhos, a perda dos amigos, o passado que precisa ser resolvido, tudo desencadeando a inevitável solidão e confusos delírios reais. Perde-se a “sensação de ilusão de controle”, de “traçar seus planos e ter caráter, retidão, equilíbrio, estabilidade e fé” e de “se construir sobre uma base solida e rígida”.

“O Olho e a Faca” é sobre o “desejo irrealizável”, por uma viagem de total desconstrução, para assim encontrar a essência, o fio mais básico do verdadeiro querer, este engolido pela pressa dos quereres alheios (e de quem pode mais e manipula com maestria). É a loucura do reencontro. Uma estágio de regurgitação. Uma possibilidade etérea do voar dentro de si mesmo.

Contudo, ainda que nós espectadores entendamos direitinho onde o filme objetiva nos levar e nos questionar, mesmo assim, há uma quebra de cadência e um desnível do “prumo”. Somos aprisionados no universo da momentânea loucura catártica do recomeço, só que esta mudança é brusca demais e nem um pouco gradual. Podemos até dizer que é rápida como um foguete com pressa. Com isso, os gatilhos comuns ficam mais visíveis. A necessidade de exposição da linguagem quase amadora. Sim, mas um elemento não perde força: as interpretações de Rodrigo Lombardi e de Roberto Birindelli, que merecem cada aplauso.

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