Cabeça de Nêgo

Não Passarão

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Para alegrar, ao menos, uma noite da Mostra Aurora na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Cabeça de Nêgo” de Déo Cardoso é uma parábola combativa à inércia, seja ela de teor político ou padronagem de cinema. Combativo e reativo, o filme vai direto ao ponto, acertando em seu discurso contra a violência policial, o racismo e o reacionarismo que domina o país.

Em exercício textual, a crítica não tem exatamente o que falar sobre a obra, pois está tudo ali, as falas são claras o suficiente para que não haja ninguém para se debruçar sobre, eis o trabalho infeliz de comentar sobre algo que carrega uma diretriz tão consciente que dispensa comentários.

Os personagens possuem caricaturas bem marcadas, o que pode se tornar um problema com o passar do tempo, já que tais figuras vão desmoronando ao longo do tempo. Contudo, por ser um retrato de sua época, possui o imenso mérito de conseguir classificar com maestria uma urgência concisa do enclausuramento que a mídia aplica socialmente aos corpos dos jovens que são normalmente considerados delinquentes. Consegue expor a manipulação geral que há em acordo com o poder público e setores da sociedade para que haja boicote de manifestações populares em prol de minorias e/ou ao direito de ir e vir daqueles que ofendem a classe dominante simplesmente por serem honestos em suas jornadas.

A catarse aqui é satisfatória, pois consegue impor contra o papel do Estado e da instituição de ensino uma responsabilidade que costuma-se negar com veemência. Em questão, é incomodo ver alguns diálogos tornando-se expositivos demais, como a reação de uma professora (aplaudindo) a fala de sua colega de trabalho. Ainda que haja esse didatismo, até bastante positivo do projeto, fazendo com que consiga dialogar com diferentes públicos (assim como representar alguns), determinadas situações com essa carga mais expositivas acabam enfraquecendo o longa-metragem. Isso se dá porque há uma crença na necessidade de reiterar falas e comportamentos a todo instante. Claro, sabemos da ignorância em massa que generaliza nossa cultura e sociedade, o que torna a atitude compreensível, mas burocrática diante da natureza da obra.

De maneira programática, a estrutura narrativa do filme segue uma ideia bastante clara que torna tudo mais positivo, já que é possível se projetar em determinadas situações e torcer junto com determinados personagens, pela penalização de outros. Em questão, o roteiro possui algumas saídas que são compreendidas através da negação da complexidade, o que é assertivo do ponto de vista intencional que a obra se abre, mas força questões formais à uma diretriz que está consciente do trabalho de educação dos olhares através das ações dos protagonistas.

As atuações acabam fluindo de maneira orgânica, já que consegue passar claramente os sentimentos que estão envolvidos naquela militância que está ali presente, ainda que por conta dos diálogos expositivos algumas situações acabem ficando brevemente desconcertantes. Pensando sob esse prisma, há momentos, portanto, que o texto não ajuda. Mas, ainda assim é honesto a ponto de não incomodar durante a projeção.

A potência que há enquanto se assiste “Cabeça de Nêgo” está ligada diretamente ás questões políticas que estão circulando o país neste momento. Assim, o cinema brasileiro contemporâneo, que precisa responder, urge em complacência com as revoltas diretas a qualquer medida do Estado. E Déo compreende isso com uma lucidez necessária, promovendo o público a participação direta com a obra, já que por diversos momentos é possível escutar aplausos ao longo da sala de exibição, vaias para fala dos reacionários da história, entre outras coisas. Esse apoio popular pode vir a render o prêmio do Júri para o filme. E nada mais satisfatório para um autor que está começando a trilhar sua carreira no cinema do que uma sala com setecentas pessoas aplaudindo de pé sua obra.

“Cabeça de Nêgo” é potente e possui a verve necessária para estruturar algum debate político e formal após a sessão. Consegue ser direto ao ponto de não girar em círculos em sua própria epifania filosófica canhestra, como diversas outras obras que estão aqui na Mostra de Tiradentes. E mesmo que possua problemas nos diálogos e algumas atuações isoladas possam vir a causar estranheza, faz jus à sua seleção na Mostra e fortalece ainda mais o vínculo da realidade com os vinte e quatro quadros de ilusões e desejos.

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