Crítica: Winter Sleep

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn
Por Fabricio Duque

“Winter Sleep”, título que não
foi traduzido literalmente por “Sono de Inverno”, teve sua estreia nos cinemas
respeitando sua duração original de três horas e dezesseis minutos. O filme
venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2014, não só porque lá na
França há preferência por longas obras cinematográficas, mas sim pela ode
à existência do ser humano, envolvido em subjetivismos, princípios,
moralidades, virtudes, culpas e desejos. O longa-metragem é dirigido pelo turco
Nuri Bilge Ceylan (de “A Pequena Cidade”, “Três Macacos”, “Era uma Vez na Anatólia”)
e reitera sua característica principal de utilizar a narrativa de novela
realista pelo artifício das conversas estendidas e adjetivadas, que traduzem
inúmeras conotações e funcionam como uma terapia cognitiva familiar de trazer a
verdade à tona, de “lavar a roupa suja” e de limpar as mazelas da frustração presentes
na alma, ora por causa do tédio, ora por comodismo, ora por preguiça. O ponto
alto é, sem sombras de dúvida, o texto empregado e interpretado de forma
afiada, perspicaz e extremamente naturalista. O tom novelesco, em hipótese
alguma, comporta-se como depreciativo, apenas indica o gênero narrativo que se
deseja conduzir, a fim de criar no espectador uma atmosfera de uma
“intrometida” intimidade. Os embates verborrágicos, dotados de superioridade
argumentativa e arrogância individual buscam dissecar julgamentos, como “lições
sobre temas que não conhece” como religião e espiritualidade (“Você nunca
entrou em uma Mesquita”). O fato do “assunto escolher a pessoa”, e não o contrário,
“apela” a uma agressividade defensiva, que confronta passionalidades dramáticas,
perspicácias, reflexões “egoístas”, sarcasmos, condescendência “sorrateira”
(“lobo em pele de cordeiro”), sensibilidades, auto-ilusões e a “requentar os
mesmos assuntos” (subterfúgio recorrente para retroalimentação da briga
buscada). O vilarejo inóspito do inverno, que mais parece uma imagem animada
quando inserida alguma cor, “governado” por um “moderno” patriarca (um ator do
passado e um escritor), que possui um hotel na região de Anatólia Central (para
turistas) e casas alugadas (para moradores), é transpassado à tela por elipses
de um tempo contemporâneo, porém arcaico e atemporal. O roteiro não tem
“pudores” em “expor” os verdadeiros sentimentos oportunistas e manipuladores de
seus personagens, como quando alguém é confrontado a perder todo o “conforto”,
a reação torna-se mais “amigável”. O filme incomoda pela alta carga dramática
de interagir quem assiste a um universo constrangedor de percepção do próprio
indivíduo, que aqui, “ganha” sua libertação e não precisa mais fingir (exceto
pelos empregados “babás”, que necessitam reiterar suas condições
subservientes). Só que cada um deles não está preparado a essas “dicas
comportamentais”, sentindo-se “atacado” pela verdade das palavras desferidas.
São hipócritas e optam por vivenciar seus mundos, iludindo na fantasiosa ideia
de ser o que são. Aqui, há quebra paradigmas pré-estabelecidos socialmente,
questionando se o rico precisa realmente ter vergonha por ter dinheiro e ou o
pobre sempre se utilizar da questão vitimada. Tudo cai por terra quando somos
surpreendidos com reações não “condizentes” com a classe social. Tudo muda. O
filme, que já era grande, adquire uma maestria inquestionável: a de “explorar”
o ser humano pelas “crenças” massificadas, tornando-lhes fantoches de uma
moralidade confusa, deturpada e ininteligível. Assim, pela simplicidade das
ações, há um trabalho antropológico da complexidade humana que é permeado sem a
presença de trilha sonora e ou gatilhos comuns ilusórios. No final, o
espectador já está “convencido” sem questionamentos do prêmio que o filme
recebeu. “Winter Sleep” tinha o corte inicial de quatro horas e trinta minutos,
foi inspirado nos contos de Tchecov, Tolstoi, Dostoievski e Voltaire e o
mais longo filme a ganhar a Palma de Ouro. E coincidiu com o centenário do
Cinema Turco. Além de tantas outras referências intelectuais. Recomendado. 

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *