Crítica: Capitã Marvel

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Covardia e frases de efeito

Por Vitor Velloso


A Marvel e sua inimaginável bilheteria vêm desde 2008 conquistando um público colossal através de suas narrativas de super-herói, quase sempre presa a uma fórmula pouco criativa e com o mesmo padrão estético definido há 10 anos. Ano passado (2018), seu universo foi reformulado com “Pantera Negra” e “Vingadores: Guerra Infinita”. Estas duas obras conseguem se diferenciar tanto na temática quanto em sua forma. E agora, em 2019, o estúdio abre os lançamentos com “Capitã Marvel”, uma grande promessa por desejar abordar o campo feminino neste mundo dos heróis. Curiosamente a DC, que iniciou esta proposta de filmes mais recentemente, já emplacou um longa, “Mulher Maravilha”. A Marvel perde as rédeas e volta à mediocridade.

Em um mundo onde o ódio está em alta e a liberdade tenta responder da maneira que a falsa democracia permite, manter-se longe das discussões políticas é uma postura acima de tudo covarde, e infelizmente a empresa buscou evitar algumas polêmicas em seu longa. Já falaremos disso.

Dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden, conhecidos pelos projetos de comédia, o novo sucesso de bilheteria da Marvel chega aos cinemas para contar a história de Carol Danvers, a protagonista e heroína que dá nome ao título. Sendo mais um típico filme de origem, a narrativa vai possuir aqueles flashbacks insuportáveis e uma variedade de diálogos expositivos. O aborrecimento que toda a dramaticidade encenada pela dupla de diretores e tamanho que conseguem tornar uma história simples e direta (é potencialmente interessante) como a da personagem em algo tedioso. Além do mais o comprometimento em retratar uma dualidade na personagem apenas dificulta seu desenvolvimento, já que reduz as possibilidades a um sempre binarismo, compreensível, mas reducionista. O estúdio demonstra sua fraqueza com temas complexos ao adotar quase o oposto da DC no que tange a discussão feminina neste cenário dominado por uma misoginia tóxica e agressiva.

O longa da Warner DC sofreu duras críticas de descerebrados por ser um projeto excessivamente sexista (ora está muito longe disso), mas ainda que fosse as mulheres estão acostumadas a mais de 100 anos com um aprisionamento ideológico e de corpo tão graves que jamais me incomodaria de assistir a um filme assim. Desta maneira, a Marvel, conhecida nos quadrinhos por um posicionamento político constante, realiza uma postura mais passiva quanto ao assunto, deixando as deixas para alguns diálogos específicos onde busca fortalecer a imagem da heroína e emancipar seu corpo, mas tenta atingir isso com uma estrutura formuláica de super-herói que reduz toda a potencialidade da narrativa a um acomodamento pouco compensador.

E acredita mesmo, piamente, que consegue alguma proeza com o diálogo final contra o vilão: “Eu não preciso provar nada para você”. Está certo que é divertido assistir ela dizer isso, mas jura que os responsáveis reduziram tudo a apenas isso? Além do mais toda a construção atmosférica-cênica fixa-se na datada proposta do início da década, até mesmo quando os eixos se libertam e podemos ter uma dimensão melhor da grandiosidade dos poderes da protagonista. Os diretores não ousam em inovar com artifícios fora da fórmula marvelesca, até mesmo o humor lembra o de ”Guardiões da Galáxia”, aborrecido e repetitivo.

O projeto está longe de ser realizado com intenções positivas, apenas um profícuo oportunismo e necessidade de resposta a empresa concorrente. A oportunidade deixada para trás atinge gravemente a qualidade dos últimos filmes realizados por eles, mas também demonstra um medo obsoleto quanto às medidas políticas no mundo e na terra americana de Donald Trump.

O exemplo mais claro dessa postura covarde é a relação entre a Capitã e sua amiga Maria Rambeau (Lashana Lynch), claramente homossexual mas abordada pelos diretores de maneira sutil, sempre evitando explicitar os verdadeiros sentimentos por trás de cada diálogo, deixando apenas pro público analisar as interpretações das atrizes e tirar as próprias conclusões.

Aliás, todos os atores estão medianos durante toda a projeção, ninguém se destaca, nem mesmo a atriz protagonista Brie Larson consegue extrair algo grandioso da personagem, pelo contrário, a montagem é tão desastrosa que entre um diálogo terrível e outro, permite situações extremamente vergonhosas. Jude Law está interpretando uma caricatura vilanesca de maneira tão preguiçosa que é possível ler cada um de seus pensamentos desde sua primeira aparição. E no fim, a Marvel não surpreende e mantém seus frágil status de fórmulas batidas. Novamente. 2018 foi um bom ano pra empresa, 2019 começou mal.

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