Aquarius

A era de Aquarius é agora!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2016

É muito complicado desferir opiniões analíticas críticas quando um longa-metragem “transcende” a barreira do “apenas um filme” e atinge o status convergente que mescla política e arte cinematográfica. “Aquarius”, do diretor Kleber Mendonça Filho, o KMF, é um deles, tangenciando inúmeras vertentes de tempo situacional, permitindo referências sensoriais aos acontecimentos, e gerando linhas complementares e específicas. Exacerba-se o subjetivismo, característica já intrínseca da crítica, alimentada por condutas individualistas, éticas e de crenças políticas. É o novo filme do diretor de “O Som Ao Redor”.

É o filme que foi selecionado à categoria oficial Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016. É o filme que tem o retorno do atriz Sonia Braga (a protagonista irretocável e um “monstro” em cena, “uma força da natureza”). É o filme do protesto (com cartazes no topo da escadaria que leva à entrada do Grand Théàtre Lumière), contra a situação política do Brasil (“Um pequeno gesto bem importante”, disse Kleber, no encontro-livre com jornalistas (leia AQUI na íntegra a coletiva de imprensa e veja o VÍDEO), instantes depois da exibição). E é o filme que gerou uma “comoção geral” quando recebeu a classificação indicativa de dezoito anos por conter “situação sexual complexa” (sim, há, no filme, um membro sexual masculino ereto em uma festa-suruba livre, por isso já representa a referida “censura”).

Todos estes elementos temáticos factuais podem ser definitivamente trabalhados. Mas “Aquarius” é muito mais que isto. Mais que qualquer oportunismo midiático com o intuito de atrair atenção do público e instigar a curiosidade. Acima de tudo, o longa-metragem reverbera maestrias e deve receber panegíricos pela leveza ambiente, pela espontaneidade cotidiana, pela naturalidade narrativa, pela parte técnica, pela equipe talentosa, pela direção precisa, primorosa e não preguiçosa, pelas interpretações tão entregues – que faz com que o espectador esqueça que está vendo um filme, e pelo conceito estético da nostalgia de exponenciais camadas metafóricas: do prédio que simboliza a “Era de Aquarius”, uma liberdade “Hair de ser” de um passado que hoje se transformou em um mundo mercadológico (a especulação imobiliária) “politicamente correto com regras demais” (vide “I, Daniel Blake”, de Ken Loach – que também concorreu no mesmo festival, e que por sinal arrematou o prêmio máximo); da trilha sonora saudosista (que pode ser escutada no Spotify “Aquarius”) das músicas antigas, como “Another One Bites The Dust”, do Queen; “Sentimental Demais”, de Altemar Dutra; e “Hoje”, de Taiguara, que “descrevem” a personagem em suas essências vivenciadas-idiossincráticas adjetivadas de um feminismo (transmutado em ativo) que não cessa a luta e que não mitiga sua sexualidade. Há muito o que falar. Vamos por partes! E olha que a crítica propriamente dita ainda não começou a ser dissecada.

Quando perguntado sobre a força do cinema (“pessoal, estranho e livre”) pernambucano, KMF, disse que não saberia responder. Talvez, para o nosso site, o novíssimo cinema romeno tenha a resposta para explicar.  Ou talvez o Cinema Novo. Ou talvez a Nouvelle Vague de Jean-Luc Godard e François Truffaut. Ou seja melhor pegarmos as referências do próprio diretor, que se sente confortável com o “cinema dos anos setenta (tela larga, zoom e grua), principalmente o americano de Robert Altman, Brian de Palma, Sidney Lumet, o próprio Steven Spielberg com “Tubarão”; e “São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person.  Sim, é indiscutível que este seu novo filme em questão aqui, prova que a fórmula-tesouro da perfeição de se fazer cinema possa ter sido realmente descoberta. É impossível não reiterar em cada extenso parágrafo a qualidade ímpar de “Aquarius”, um filme sobre o “realismo social”. “É naturalidade, mas é cinema move-movie. Não é documentário. É filme de cinema mesmo”, disse o diretor KMF.

Quando adentramos na análise esmiuçada propriamente dita de “Aquarius”, então percebemos a sutileza que os detalhes-simbólicos são apresentados. Entre fotografias nostálgicas, memórias de subjetivismo da própria imaginação relembrada, o “cabelo” dos anos oitenta, a festa de família (propositalmente caseira, amadora, de projeção atmosfera encenada-novelesca-teatralizada, idosa “danada” que “lembra do sexo intenso que já teve”, o sotaque, o anti-naturalista, homenagens sentimentais), a aproximação “explícita” da câmera, a frase “Esqueceram a revolução sexual”, tudo aborda um propósito. Uma forma. Um conceito. Inclusive o poster do filme “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick. Contam a verdade sem contar tudo. O sorriso que é coisa séria. O passado passa. Como um sonho perdido. E a elipse livre viajada ao presente já está “vintage”.

A casa, um apartamento que “atrapalha” o futuro, perde a característica sentimental emotiva de lar e se torna um “empreendimento” imobiliário. Aqui, o inferno são os outros. O vilão, o próprio progresso, que combate o “atraso-decadente-antiquado” de conservar a rememoração física da auto-felicidade. Talvez, possamos inferir que a contemporaneidade não consegue conviver pacífica e democraticamente com quereres-vivências antigas. A naturalidade, à moda do cinema do coreano Hong Sang-soo e “A Visitante Francesa”, de uma ida à praia, do flerte “desengonçado” com um salva-vidas (outra metáfora). Os elementos conjugam em um equilíbrio magistral. E é inevitável não referenciarmos “O Som ao Redor”, em sua temática recorrente e de grito social.

Mas realmente precisamos retornar e falar mais de Sonia Braga. A atriz, como já foi dito, está irretocável, interpretando uma crítica musical de forma entregue, debochada, livre, sarcástica, irônica, despretensiosa, verdadeira, enérgica, defensiva, insistente, persistente, decidida, direta, excessivamente perspicaz, espirituosa, individualista, intolerante, competitiva (que consome cultura),  como uma personagem de Godard, como um ser humano real, que caminha entre a passividade social, a altivez do orgulho, a maconha e o vinho. Ela mitiga completamente suas vaidades e encarna sem medo do retorno, as características intrínsecas de sua personagem vaidosa (que teve câncer e tem um seio a menos).

Ela, sua Clara, briga literalmente por seus direitos e contra os “monstros” personificados em funcionários ambiciosos, que não reverberam práticas flexíveis, e sim teorias sistemáticas “irreversíveis” de livros de faculdade. Clara perdeu os freios e a compostura social. E assim não perde a “oportunidade” de alfinetar e se “vingar” de “jornalistas idiotas” e futeis ao contar a história do disco de John Lennon. É tudo sobre Clara. Um indivíduo normal, de especificidades únicas, particulares, e de gênio forte. Tudo, mas tudo mesmo para que Sonia Braga brilhe integral e em um desbunde maravilhoso, incluindo a luz clara nostálgica e realista ao mesmo tempo, como uma fotografia que discute e questiona seu lugar de permanência. É o amor de Clara.

A parte técnica de “Aquarius” é de uma perfeição mágica. A trilha sonora conduz o publico a uma viagem que inclui Maria Betânia e seu “Eu sei que eu tenho um jeito estúpido de ser” (outra metáfora a Clara?); o jazz; Alcione e “Sufoco”. De novo, Clara é o ser principal. As fofocas com as amigas, o “tesão” despertado quando assiste a uma suruba explícita, o almoço em família, o medo esquecido de começar a sentir medo (“aumenta na velhice”; “é bom ter um pouco de medo”), tudo retrata seu comportamento e nossas percepções. Se antes, um bandido era apenas um batedor de carteira, hoje, os perigos cresceram e foram convergidos a iminentes terrorismos diários. O mundo mudou. O medo é real. Ela perde o tempo, o ócio criativo, a sensibilidade de se balançar na rede.

Não há limites para se conseguir desejos e quereres, com pressão, violência moral e tortura psicológica. Clara agora tem medo. Meio caminho andado ao apocalipse social, metaforizado pelo chiado do vinil e pelo namorado do filho. A metamorfose. O som sensorial de suspense. “Nem os cariocas destruíram meu amor pelo Rio de Janeiro. Cariocas botam pra lascar”, diz-se sem tabus. Clara é destruída. Por dentro. O câncer. Metáfora de um mundo moderno que faz de tudo para diminuir o outro. O culto evangélico. A janela que agora precisa ser fechada. A revolta. A sensação de perigo aumenta. Cada vez a perseverança perde mais lugar. E a deixa doente. A casa sente os efeitos da “injeção venenosa”. Ossos são “desenterrados”. O lar perde contexto. Clara tem que escolher se deixa morrer ou busca força na raiva utópica, desesperada e vingativa.

Como foi dito, é tudo sobre Clara.A perda da inocência. E como a escuridão está se aproximando mais e mais de nossos corações puros, envenenados por um presente, que já vive no futuro, cruel, corrido, injusto, hostil e robótico. É impossível não amar “Aquarius”. É tudo isso que foi dito e muito mais.  Produzido pela Globo Filmes, co-produzido por Walter Salles, tem um elenco primoroso, que conta com Humberto Carrão, Irandhir Santos e Maeve Jinkings. “Aquarius” é recomendadíssimo.

Trailer

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