A Alegria

Entre a pretensão e a ingenuidade

Por Fabricio Duque

“A Alegria” complementa-se dizendo que é um filme de super heróis. Estes podem ser caracterizados pela falta do medo, pela coragem de transpor adversidades, pela curiosidade sobre humana, pela busca da liberdade total, pela experimentação de sensações, pelo sentimento de abandono e pelo vazio existencial. Tudo gera a “sobrevivência” diária. Os personagens referidos são adolescentes confusos, que não sabem para onde ir ou o que fazer no próximo instante de suas vidas. É uma vida limitada. Há a família, a escola, as questões problemáticas (exageradas) deles mesmos e dos amigos. Precisam de algo a fim de preencher esta lacuna individualista.

Então, a solução é procurar aventuras, que servem tanto como auto-conhecimento, quanto como o chamamento de atenção aos adultos. Eles convivem com o meio o qual se encontram. São influenciados pelas consequências e tradições dos parentes, desencadeando um universo diferenciado e próprio. A unicidade pode ser compreendida pela apatia – e defesa – social. O outro significa o desconhecido a eles, que ficam perdidos nas idiossincrasias alheias. Os diretores Felipe Bragança e Marina Meliande (de “A Fuga da Mulher Gorila”) objetivam transmitir o comportamento inexplicável do ser humano, ora se comportando como estranho, ora como surreal, mas em ambos o entendimento sobre o mundo e ou sobre eles mesmos fica em segundo plano.

Os cineastas optam pelo caminho do misticismo e do popular para que possam mostrar as agruras dos seus personagens. Essa desordem apresenta-se quase como um círculo. Muitas das vezes, as situações são aumentadas pelas próprias ações atrapalhadas. A narrativa conduz o espectador em um universo de estranheza e epifania. Nós somos cobaias deste experimento cinematográfico. Felipe Bragança foi diretor-assistente e roteirista de “O Céu de Suely” (do diretor Karim Ainouz), roteirista da série da HBO Latin America, “Alice”, e co-roteirista do longa-metragem de estreia de Eduardo Valente “No meu Lugar”. Os dois diretores referenciados, Karim e Valente, ajudaram na realização deste filme em questão. O primeiro atende a função de produtor associado, já o outro, é colaborador. É um projeto de amigos, feito com pequeno orçamento e muita garra na alma. Porém nem todo longa-metragem deste Novíssimo Cinema Brasileiro consegue quebrar a casca da superficialidade, fazendo com que quem assiste tenha uma experiência sensorial e incrível.

“A Alegria” não consegue quebrar esta casca, talvez pela escolha não acertada do elenco, que tenta, mas não convence nos diálogos, que se comportam como artificiais, afetados, encenados e dramáticos. O argumento é extremamente interessante. Ligar a metáfora física dos super-heróis aos sentimentos conturbados destes adolescentes, mesclando a incompreensão como elemento concreto e palpável. Porém, a transposição ao roteiro perde-se por incluir elementos em demasia. Isso ocasionou a correria narrativa. Precisava-se fornecer respostas e ainda trabalhar a experimentação. Ufa! Só de pensar já estou cansado. A parte surrealista homenageia o cinema de Apichatpong Weerasetakhul, cineasta tailandês que dirigiu “Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”. A referência a ele é explícita na cena da floresta (e se o leitor reparar bem, atrás de um dos personagens, passa uma luz vermelha, assim como no filme de Apichatpong). E ainda há o monstro marinho (estilizado a nossa cultura popular) que deseja “sequestrar” a protagonista, aludindo a vontade que ela (e todos os jovens, em algum momento) possui de se suicidar, a fim de acabar com o aperto em seu peito. Mas quem tem amigos, tem tudo. Vamos por parte.

O início mostra fragmentos existenciais de imagens, com narração pessimista, realista e um pouco resignada. “Tem dias que é bom ter nascido sem alma”, diz-se. Logo depois, dois mascarados conversam sobre tradições e a necessidade de respeitá-las e que fogem de tiros. Aos poucos, a história vai sendo montada, porém alguns elementos explicativos ficam sem a devida resposta. O roteiro busca a naturalidade do cotidiano. Com imagens amadoras, mas editadas, mostra-se uma festa natalina de família, com alguém cortando uma jaca. Há o suspense que manipula o espectador. Essa parte uma das mais interessantes do filme, e conta com a presença da atriz Maria Gladys. A mãe da protagonista precisa ficar com a tia por causa do sumiço do filho (da tia). Luíza (Tainá Medina, que foi selecionada a partir de um perfil no Orkut), a filha, é uma garota de 16 anos, que recebe a visita de seu primo. “Você é capaz de cuidar de um cachorro, uma samambaia e um apartamento?”, pergunta-se, querendo o tom cult e perspicaz, mas o que consegue é a ingenuidade quase infantil, quase tolo. A trama suplica que o espectador seja cúmplice, contudo não oferece a contra partida, que é o convencimento. Isso atrapalha em muito o mergulho à história apresentada. O incômodo desperta a falta de atenção.

Os personagens quebram limites, como o anel oferecido a São Jorge em um macumba, que é “roubado” por um deles e re-oferecido a protagonista, que não tem medo. A tempestade, o raio, o celular vibrando, o apito de um navio, tudo gera o efeito do efeito. “É uma guerra que a cidade será varrida do mapa”, diz o pai, um dos únicos a fornecer um inteligente e natural convencimento interpretativo. “Eu tenho raiva de quase tudo”, diz a protagonista. Entre segredos e juramentos – antigravidade – (com Cheetos), eles vivem suas vidas, conhecendo novas possibilidades, explorando novos caminhos e sendo transgressores a maneira deles. Esses adolescentes são comuns, dentro da padronização esperada. Unha roída, o cigarro como figura revolucionária e a meta do futuro de ser sempre alegre, num mundo que perde a graça a cada minuto. “Vou ser sempre alegre. É tipo uma febrinha que dá”, diz-se. “Vai rir de tudo?”, rebate-se. “Vou ser alegre, não estúpida”, responde-se. Há elementos que ajudam a definir o que são. A foto de Johnny Deep na porta da geladeira é um deles.

Por outro lado, há elementos em “A Alegria” que o torna quase patético. O olhar de “peixe morto” e sem expressão da protagonista. A risada exagerada em muitos momentos. A revolta nas ruas do Centro do Rio de Janeiro significa a transposição ao externo do que se encontra na alma sofrida deles. Luíza é atingida por estilhaços de uma bomba. “Alegria é minha política”, ela diz. O final surta. É como se pensasse “Agora que foi, vamos até o fim”. A risada exagerada é recorrente. Cansa. O sabão em pó no chafariz. Perceba o olhar curioso dos transeuntes. E para fechar, com chave de ouro, o olhar interativo de ter recebido um poder extra a fim de que possa salvar o mundo.

Concluindo, um filme entre a pretensão e a ingenuidade. Longo. E que incomoda em muito a falta de naturalidade dos diálogos. Recomendo por Maria Gladys e pela homenagem ao cineasta tailandês. Foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes 2010, e para a mostra Bright Future, no Festival de Roterdã 2011. Seu orçamento foi de R$ 750 mil, parte dele vindo do fundo holandês Hubert Balls. Vencedor do Festival de Brasília 2010 em Melhor Ator Coadjuvante – Rikle Miranda e Melhor Direção de Arte.

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