Ficha Técnica

Direção: Eduardo Valente
Roteiro: Eduardo Valente e Felipe Bragança
Elenco: Dedina Bernardelli, Márcio Vito, Raphael Sil, Cesar Augusto, Licurgo Espínola, Nívea Magno, Luciana Bezerra, Leticia Tavares e João Pedro Celli.
Fotografia: Mauro Pinheiro Jr, A.B.C; Direção de Elenco: Pedro Freiro
Montagem: Quito Ribeiro; Produção: Walter Salles, Mauricio Andrade Ramos, Luis Galvão Teles
COTAÇÃO: MUITO BOM


Apresentando a opinião

O subjetivismo do ser pertencente a uma sociedade está em estágio crescente. Este aumento causa a não visão do outro. O indivíduo invisível cria as próprias regras, verdades e opiniões radicais. Isso gera a violência interna da não solidariedade e a banalização do agravo ao próximo. Quando as situações fogem do controle do limite aceitável, o caos não aceita mais este limite, fornecendo a conclusão de que não há mais saída. A exteriorização da violência é somatizada pelos acontecimentos e o meio que o vive já não se importe mais por serem corriqueiros e tão comuns a políticos em épocas de campanha.


Um Filme de Instantes Normais, Simples e Nostálgicos

Por Fabricio Duque

“No meu lugar”, longa-metragem de estréia do diretor Eduardo Valente, foge do sensacionalismo barato, retratando a normalidade e a banalização de casos violentos. Utilizando um viés experimental técnico com extrema competência, mostrando pouco as ações e agindo mais nos diálogos realistas, ele respeita o tempo da narrativa que apresenta-se humanizando os personagens. Não há julgamento entre o certo e ou errado. A câmera apenas retrata o que acontece.

“Um pouco mais do mesmo”, diz-se exemplificando a conclusão de um roteiro muito bem realizado. A simplicidade, quase nostálgica, embalada por músicas que lembram o instrumental de Marcelo Camelo, das ações convence fazendo esquecer que estamos em um cinema.Quando um filme é não é linear, começo, meio e fim, há a possibilidade de perder-se no caminho causando a artificialidade. Aqui não, até porque não não há efeitos de transição de explicação. É um quebra-cabeças que precisa ser montado, respeitando assim a inteligência do espectador.

O diretor de elenco Pedro Freire acertou a mão das interpretações. Há cumplicidade, naturalidade e realismo nelas. Até quando utiliza a sexualidade sensual carioca, que está mais do que presente, não apela na linguagem. Pode-se caracterizar como um “filme de instantes”, que anda, anda e volta ao mesmo lugar. O pouco é usado exacerbadamente e o excesso do muito foi cortado. O existencialismo de cada um mistura-se com o do outro deixando as relações humanas fragilizadas e superficiais, enquanto o tratamento interno do próprio andante do caminho exaspera-se de forma sentimental.

Rio de Janeiro, hoje. Um policial se vê obrigado a intervir num assalto a uma casa de classe média alta no bairro das Laranjeiras. A partir deste evento, o filme acompanha três histórias passadas em tempos diferentes. Dias depois, o policial, suspenso das suas atividades, tenta seguir adiante com o seu dia a dia normal, entre a vida com sua única filha e a presença dos amigos. Cinco anos depois, uma mulher volta com seus dois filhos e o novo marido para esvaziar e vender a casa onde morou no seu casamento anterior até a morte do primeiro marido. Algumas semanas antes, um entregador de compras de um supermercado descobre o amor da sua vida.

Em relação a duração total, o longa é bem longo. Às vezes cansativo e repetitivo, mas não atrapalha em nada o conjunto da obra. A produção é de Walter Salles, que faz lembrar muito a estética adotada nos seus filmes, como “Linha de Passe”.

O diretor vem obtendo sucesso desde o seu primeiro curta “Sol alaranjado”, que o premiou no Festival de Cannes. Este ano retornou a França com o longa em questão.

Vale muito a pena ser visto! É excelente. Mas corra. O leitor sabe como é o tempo de permanência de um filme não comercial em circuito, não sabe?


O Diretor e Roteirista

Formado em cinema pela UFF, com mestrado em comunicação pela USP. Dirigiu os curtas Um Sol Alaranjado, Castanho e O Monstro, todos selecionados para diferentes seções do Festival de Cannes. Em 2009, lança seu primeiro longa-metragem, No Meu Lugar. Além de cineasta, trabalha como professor, organizador de festivais e mostras de cinema, e como crítico – tendo editado por seis anos a Contracampo.

 

 


O Outro Roterista

Cineasta, formado pela UFF. Dirigiu 3 curta-metragens: Por Dentro de Uma Gota Dágua, O Nome Dele (o clóvis) e Jonas e a Baleia. Foi diretor-assistente e co-roteirista de Karim Ainouz em O Céu de Suely, escreveu o roteiro de No Meu Lugar, de Eduardo Valente e foi um dos roteiristas da série da HBO Latin America, Alice, de Ainouz e Sérgio Machado. Lançou na 12a Mostra de Tiradentes, janeiro de 2009, seu primeiro longa-metragem, entitulado A Fuga da Mulher-Gorila (co-dirigido com Marina Meliande e premiado como melhor filme). Está atualmente na pré-produção do longa (também em parceria com Marina Meliande) A ALEGRIA.

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