Codinome Clemente

Carta de amor a Fleury

Por Vitor Velloso

Durante o Fest Aruanda 2020

“Codinome Clemente” de Isa Albuquerque é um documentário de importância ímpar para uma discussão histórica no Brasil, pois vai à margem de uma verdadeira proposta de revolução, que se configurava a partir de uma estrutura de violência. Diferentemente do rebote progressista intelectualoide que vemos na Zona Sul carioca, o documentário está a disposição da História para contar a trajetória de um dos maiores guerrilheiros, que enfrentou a ditadura brasileira entre 60-70.

Sem criar laços com as forças opressoras, o filme escuta de seu protagonista os feitos dos tempos de guerrilha e coloca a disposição os múltiplos relatos em torno da figura de Clemente. Oração ao extermínio fascista em prece de comunhão na base da bala, sua estrutura se revela conforme os anos se passam na tradição oral e dos materiais de arquivo que vão se somando afim de criar representação dessa memória. Assim, o público se vê nos locais históricos de determinados acontecimentos, conseguindo uma assimilação através do tempo. Contudo, pequenas decisões formais acabam tornando o exercício brevemente piegas, pois o recurso das animações para tratar dos fatos, se torna um barato meio desconectado do restante da obra, que segue à risca uma exposição histórica através de uma dialética materialista, formulada entre a tradição oral nas entrevistas e os materiais de arquivo.

Porém, as camadas da História ganha um corpo novo através dos relatos dos demais guerrilheiros que discutem questões internas do período e uma necessidade de lembrar Clemente como um símbolo necessário para o período. Por sua vez, o protagonista, sempre acompanhado de um cigarro, nos dá pistas de movimentações políticas que eram realizadas contra as estruturas de poder da ditadura e desestabilizações buscadas. “Codinome Clemente” consegue captar o interesse do espectador com facilidade, mas peca em ritmo, especialmente em sua meia hora final. A estrutura do longa cria uma lentidão quase inevitável, já que salta de um lado ao outro para que possamos compreender perspectivas diferentes de determinados atos políticos. Marighela, figura amplamente citada, possui onipresença no imaginário do documentário e consegue inflar uma parcela de seu material para que tenhamos uma compreensão mais ampla das atitudes, a longo prazo, de maneira equivalente.

No Brasil contemporâneo, parte das forças autointituladas progressistas, concebem uma estrutura reformista da realidade política nacional, sem recorrer a essa rica historicidade que os precede. Desta maneira, seria de bom gosto a exibição do longa em partidos e organizações, para que uma nova geração de ideias possa vislumbrar os esforços do passado. Não basta louvar a juventude do Araguaia, apenas. É uma necessidade estrutural que haja propriamente um debate em torno do materialismo histórico dialético, enquanto método, compreendendo sua mudança de funcionalidade.

“Codinome Clemente” patina no ritmo e acaba arrastando por demais sua projeção, mas consegue alguns feitos dignos de nota. A obra de Isa Albuquerque percorre um longo período no Brasil e transa com algumas frentes distintas no eixo do documentário. Vai da entrevista na rua ao estúdio, do material de arquivo aos relatos de outras forças políticas. Essa multiplicidade, quando não acompanhada das animações (que tentam dinamizar a estrutura e apenas atrapalham), enriquece seu material por conseguir construir camadas distintas para a mesma narrativa e articula forças que se complementam. As entrevistas são conduzidas com finalidades definidas e aparecem para casar algumas ideias, não apenas somar.

Assim, o documentário possui uma consciência muito clara dos caminhos a serem percorridos, não permite relações exteriores à sua própria condução e formaliza uma dialética entre a própria linguagem que horizontaliza suas imagens. Clemente é uma figura admirável na História Brasileira e deveria ser mais reconhecido como tal, pois sintetizou uma luta política, econômica e social em ações que marcaram o século XXI no país que décadas depois iria eleger o homem que homenageou um torturador em plena Câmara dos Deputados. Ao Brasil, pelo Brasil, sobre Brasil.

Fiquei sabendo que o Palácio do Planalto irá exibir uma sessão gratuita de “Codinome Clemente”, para as famílias vítimas da ditadura. Ou assim deveria ser feito. Isa Albuquerque consegue fazer um filme de importância, sem a militância inócua que vemos no mercado do consenso.

Trailer

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