Céu Vermelho-Sangue

Nossos vampiros, Nós mesmos

Por João Lanari Bo

Céu Vermelho-Sangue

Os vampiros não são nem desumanos, nem não-humanos, nem excessivamente humanos; eles simplesmente estão mais vivos do que deveriam (Nina Auerbach)

O título acima foi emprestado de um livro sobre esse fenômeno que atormenta a humanidade desde os tempos imemoriais – vampiros. O filme em tela, “Céu Vermelho-Sangue”, foi produzido em 2021 e se apresenta como mais uma derivação temática do fenômeno na esfera cinematográfica – espaço para onde migrou boa parte dos vampiros em atividade. Nossos vampiros, nós mesmos – afinal, o que são esses monstros que perambulam na paisagem, à espreita de vítimas inocentes, mas também capazes de despertar empatia na audiência? O vampiro só sai no escuro e passa o resto do tempo em seu caixão. Os espectadores sentam-se voluntariamente em um caixão (o cinema escuro), assistindo a uma tela que não apenas a luz, mas também (dentro e entre cada quadro) a escuridão é projetada, observou recentemente um estudioso do assunto – são muitos, como se vê. Os mais exigentes invocam o psicanalista Jacques Lacan e sua famosa teoria sobre o “estágio do espelho” – que se dá entre os seis e os dezoito meses de idade, quando a criança encontra e reconhece a sua imagem especular – para formular uma hipótese ousada: como vampiros não podem ser vistos em espelhos, eles não se formaram como sujeitos humanos, não contaram com processo de identificação e não adentraram na ordem simbólica…logo, não tem inconsciente, como nós, humanos.

O anarco-psicanalista Slavoj Zizek tem uma tirada boa sobre esse tópico – É, portanto, claro por que os vampiros são invisíveis ao espelho: porque leram Lacan e, consequentemente, sabem se comportar… E nosso filme, “Céu Vermelho-Sangue”, como se comporta nesse oceano entrópico de percepções e sensações? É a história de uma mãe solteira que foi mordida por uma criatura da noite anos antes, e pega um avião com o filho para Nova York em busca de cura para sua “condição”: por um desses azares da vida, um grupo de bad guys vagamente definidos como terroristas pegou o mesmo voo para sequestrar o avião. Não demora muito para que Nadja, nossa heroína-vampira, sugue o plasma dos homens com a intenção de assassiná-los e proteger seu filho. Sim, são dois gêneros cinematográficos num só: vampiros e toda a mitologia que conhecemos, e filmes passados em aviões. Qual a intenção? Limitar a ação ao espaço dos aviões – sempre claustrofóbico e instável, sujeito a turbulências e no limiar da queda vertiginosa – e extrapolar um dos dispositivos mais caros à saga vampiresca: o contágio, a multiplicação caótica de pobres mortais que, uma vez mordidos, alcançam a imortalidade.

Como vampiros são imortais, eles são livres para mudar incessantemente – esse é outro dos adágios em torno do mito. E aqui os realizadores de “Céu Vermelho-Sangue” aproveitaram para introduzir uma sutil, porém fundamental, variação: invertendo as expectativas do espectador, eles estão menos preocupados em como Nadja enfrenta os terroristas do que com a obsessão dela em preservar a relação afetiva com o filho Elias. Mesmo nos seus momentos de identidade fluida – eufemismo que serve para descrever estados alterados dos possuídos pelo turbilhão vampiresco – Nadja reserva um olhar de proteção afetuoso para Elias. Com o rosto e os movimentos desfigurados, com a pulsão desenfreada dos vampiros, ela para, e por um momento se vê no espelho: um resíduo de consciência ainda sobrevive naquela criatura, um desejo de proteção pelo filho que gerou e criou, que sofreu com a perda prematura do pai e merece viver …a vida dos mortais.

Esse é o ponto nevrálgico que o filme investe para captar seu público – se o vampiro representa o outro sombrio da sociedade, um excesso que pressiona e quebra as fronteiras do sistema em que vivemos, cercado por limites discerníveis, com Nadja e sua relação com Elias adquirimos a convicção de que esse excesso pode ser contido, ou ainda, assimilado. O ato clássico do vampiro, uma vez acordado dos mortos, voltando para atacar e alimentar-se nas comunidades a que pertencia antes de sua transformação, é interrompido: o excesso do vampiro se torna, de alguma maneira, aceitável. Os limites que delimitavam a ordem social foram estendidos, simbolicamente, claro, pois o cinema está na ordem simbólica: talvez essa violação dos limites corresponda a uma mutação comportamental em curso, talvez “Céu Vermelho-Sangue” seja signo de uma tolerância que emerge no horizonte.

Ao longo de sua existência, o mito do vampiro sobreviveu em diferentes manifestações – ninguém dúvida do seu impacto psicológico na mente humana. Atualizar esse mito contribui, em última análise, para revelar a natureza e as consequências desse impacto.

3 Nota do Crítico 5 1

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