Carro Rei

Christine, o que é que se passou nessa cabeça?

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Rotterdam 2021

Exibido na mostra Big Screen (de Première mundial) do Festival de Rotterdam 2021, “Carro Rei”, o novo filme da realizadora pernambucana Renata Pinheiro (de “Amor, Plástico e Barulho”), é uma experiência de gênero. Uma ficção científica tupiniquim que ressignifica os distópicos filmes em que máquinas são personificadas com inteligência. Digamos que este é o “Transformers” do Sertão com a liberdade poética da fantasia. Uma das características do cinema da diretora, e consequentemente de seu parceiro de vida e trabalho Sérgio Oliveira (que realizou em conjunto “Açúcar“), é o querer de trazer a orgânica e caseira atmosfera popular à narrativa da trama. A ideia importa mais que sua forma (e o apuro técnico-interpretativo).

Dessa forma, “Carro Rei” desenvolve-se no campo do ensaio. Um filme-processo durante a própria realização. Uma aventura-união, de improvisos encenados-teatralizados (é o que parece ao espectador), que acontece entre (e para) amigos, tudo transpassado por inocentes simbolismos (o protagonista chama-se Uno, nome de uma marca de carro), com discursos didáticos-inflamados (incluindo inclusivas lutas sociais e da natureza “agro-negócio”), expressões cunhadas  com efeito de tom épico, extensivas gírias específicas (não explicadas ao público) e por uma montagem aos moldes de uma novela de televisão: gritos sôfregos em câmera lenta, personagens caricatos-pastelões. “Carro Rei” gera mais a sensação de ser um filme infanto-juvenil (o mais acertado em potencializar a crítica social pela comédia mais direta) do que uma adulta obra séria (o que o transformaria em produto-constrangimento).

O longa-metragem também quer abarcar outras discussões. A de que “estamos nos tornando máquinas”, de que “comer é um ato político”, de que família é o que você escolhe, de que só com tecnologia se pode vencer o sistema (o “Exército da Salvação”, mesmo sendo um tiro no pé – lutar pelos carros “idosos”) e que poder é inteligência. E com o dom nascido de “escutar a voz dos carros” (o “guardião da fábrica de brinquedos”). E “fósforo”, talvez esta seja uma das explicações do porquê as interpretações (anti-naturalistas) serem tão inflamadas e forçadas em suas falas (olhares e reações), repetidoras de um frágil-óbvio roteiro. Entre elipses temporais, “Carro Rei” ensaia uma estranheza (caminho que deveria ser mais explorado), performance-intervenção e sex-car (tom futurista-coloquial em uma atmosfera oitentista atemporal). “Para que tanta verdade?”, pergunta-se. É praticamente o “samba do criolo-doido” com “pole dance”, “gorila”-inventor, “retorno à evolução”, “pedras que sequestram campos mentais de outras pessoas”, hino nacional brasileiro (talvez para mostrar um “novo país” em construção e com “O que é que tá se passando com essa cabeça?” (referência à música “O Que é Que Há”, de Fábio Jr.

Mas a veia musical não para por aí. “Carro Rei”, selecionado ao projeto do Olhar de Cinema de Curitiba, quer criar também um contraste sensorial de “Automatic Lover”, de Dee D. Jackson, com “Caruarú” (a cidade “princesinha”), de Dalva de Oliveira, esta que ilustra o nome do lugar em que o filme se passa. O que incomoda não é a experimentação-tentativa e sim buscar a facilidade da condução como foco e resultado. Até uma “câmera na mão e uma ideia na cabeça” precisa de organização e desenvolvimento. Pois é, mas há aqueles que dirão que não podemos falar mal de nossos filmes “produtos” nacionais. Sim. Pelo contrário. O realizador brasiliense de Ceilândia disse em uma das live na Mostra de Cinema de Tiradentes 2021 que nós precisamos (nosso dever) não passar a mão na cabeça. A crítica não pode nunca ser parcial-afetiva com os nossos. Foi assim que a Nouvelle Vague semeou a qualidade. Concluindo, “Carro Rei”, “Christine” feelings, ainda é um príncipe em lapidação.

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