Açúcar

A dialética do tempo

Por Julhia Quadros

Festival do Rio 2017

“Açúcar” (2017), dirigido por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, aborda questões estruturais da composição da sociedade brasileira, como a escravocracia e suas heranças. Maria Betânia (Maeve Jinkings, de “O Som ao Redor“, “Boi Neon“), cujos parentes possui um engenho de açúcar precisa retornar a ele para evitar que se transforme em ruínas e resiste à sua venda, buscando manter a posse da família Wanderley, apesar das ofertas de compra e dos pedidos dos trabalhadores. Ela entra em constante confronto com o passado e as expectativas para o futuro, mostrando-se resistente e desejosa de manter objetos, posses, posições e costumes não mais condizentes com o presente. O filme aborda esta dialética interna da personagem entre futuro e passado, medo e segurança, em que ela, ao mesmo tempo em que, por vezes, apresenta-se como opressora, também tem uma personalidade extremamente frágil e se sente vulnerável constantemente ao longo do filme.

Um exemplo disto é o embate com a personagem Alessandra (Dandara de Morais), que trabalha como faxineira na casa grande e, desde o início, provoca a antipatia de Betânia, havendo sempre um grande clima de tensão entre elas. A patroa reclama do preço cobrado pela limpeza da casa, pede um trabalho excelente, a obriga a usar um uniforme e, todas as vezes em que ensaiam uma conversa, as diferenças entre elas só aumentam e se tornam mais evidentes. Por sua vez, Alessandra exige com constância seu pagamento, que não chega e, também, reclama das condições de trabalho, como por exemplo, o cheiro de mofo de seu uniforme. As incompatibilidades entre as duas culminam em uma discussão, que elas têm em uma festa oferecida pela patroa em sua casa, quando a empregada exige seu pagamento mais uma vez; Betânia alega que sua família já fizera muito pela da jovem e que ela teria dívidas muito maiores que a ausência do seu pagamento pela limpeza. A Jovem não aceita o argumento e alega que ambas são iguais, isto gera um conflito físico, que termia com Alessandra incorporando uma entidade e, neste momento, Betânia se desespera e corre, abandonando a menina sozinha no aposento, e com ela, tudo o que teme, o seu medo do desconhecido, do futuro e da perda de seu poder. A jovem dona de engenho não suporta não ter mais a posse do que antes fora dela, o quê, para ela, é uma perda de identidade, de sua própria história de vida e até do centro de sua consciência e, desta forma, oprime todo e todos que representam esta mudança de estado.

“Açúcar”, até certo ponto, é uma síntese da luta de classes nos engenhos de açúcar, evocando Gilberto Freyre e os estudos sobre a base da formação da sociedade brasileira, que se deu com a miscigenação entre os colonizadores europeus, donos dos latifúndios monocultores e a população escravizada africana, sequestrada e forçada a trabalhar sob condições desumanas. A obra não só relembra “Casa Grande e Sanzala”, como propõe um olhar sobre a permanência de questões abordadas no livro na nossa sociedade atual. Ela propõe um questionamento para a necessidade de revisitarmos estas características e vermos o quão presentes estão hoje em nosso mundo, como isto é aplicável tanto para um modelo obsoleto, porém ainda existente, de engenhos e casas grandes, contudo, também, em cidades e em qualquer estrutura brasileira em que se evidenciem relações de poder. É um filme, sobretudo, que aborda a fragilidade existente na opressão  por parte da aristocracia, que se vale apenas de um passado e uma hereditariedade.

A vida de Betânia representa, também, um passado histórico, que não encontra mais ecos no presente. Ao chegar à casa de sua infância, a personagem olha fotos antigas e suas bonecas, como uma forma de se reconectar com esta realidade, para que volte a ser significativa para si, podendo, então, defendê-la. A fotografia de Fernando Lockett retrata a moça sempre sujeita à terra, encarando-a, pequena diante dela, perdida no tempo; além disto, a atriz sempre utiliza tons de roupa claros, como a evidenciar, incerteza e uma personalidade vaga, sendo diferente apenas em seus sonhos, onde se mostra mais potente e realizando desejos oprimidos, como a atração que sente por Zé Maria, que é o líder dos inimigos de Betânia, que organizam eventos para preservar a identidade do povo africano, como rodas de capoeira, manifestações religiosas ou músicas típicas. Em seus sonhos, Betânia se vê tendo um caso com ele e sua madrinha Dona Branca (Magali Biff), que representa para ela a manutenção dos costumes e das tradições familiares _ além disto, ela ministra melhor e mais friamente a relação com os trabalhadores, o que encanta a jovem proprietária da casa grande.

Apesar de ter um conteúdo histórico bastante contundente e de explorar esta relação entre as personagens à Freyre, “Açúcar”, a partir do conflito da protagonista com Alessandra, não corresponde às expectativas criadas no embate. As soluções aparecem apenas nos sonhos de Betânia, fazendo com que se esperem maiores soluções por parte do roteiro e o filme perca a força, de certa forma. Porém, a fotografia e o simbolismo do barco, sempre a caminho de algo, atravessando aquela realidade, em uma eterna passagem a algum lugar como, também, o fogo, a destruição, a sensualidade são significativos e interessantes para a solução dos conflitos da personagem, que tem esta crise após o confronto com a jovem empregada. Ao tentar manter as terras em seus delírios, o filme evidencia um desejo insustentável de pessoas como ela de manterem seus privilégios e posições, de uma forma insana e incompatível com o mundo atual. Desta forma, “Açúcar” propõe um questionamento sócio-econômico e um estudo sobre as relações de poder estruturais e obsoletas históricas e ainda presentes na atual sociedade.

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