Cambaúba

Entre tempos e histórias

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2023

Cambaúba

Entre o caráter regional e o passado histórico que criou chagas na histórica nacional, “Cambaúba”, de Cris Ventura, é uma obra que consegue uma síntese entre o particular e o geral, sem precisar de uma grande narrativa para alcançar um desfecho didático. 

Revelando as assombrações da Rua Cambaúba, o filme inicia com pinturas de indígenas e portugueses, como uma espécie de encontro que viria a ditar a história do país. A partir de sons que “remontam” esse momento, a câmera atravessa a pintura e revela sua ambientação, desde os povos originários pescando até o momento em que os cavalos e os europeus passam a dominar o desenho sonoro e escutamos os tiros que começaram o etnocídio. Assim, entre os pesadelos e as assombrações, Cris inicia sua pesquisa por arquivos locais, após ser informada de que os barulhos que escuta pela madrugada, são provocados pelo fantasma de Bartolomeu, que reivindica “sua propriedade”. 

“Cambaúba” é capaz de um exercício didático simples, mas muito eficiente. Na medida em que apresenta os ritos locais, conduz ao espectador um olhar sobre esse recorte geográfico que possui um passado histórico-político manchado de sangue. Contudo, não procura tensionar nada que está diretamente exposto na linguagem, utilizando enquadramentos sintéticos e econômicos, além de optar por poucos movimentos de câmera. Está claro que o que importa na construção da obra é o próprio cenário, não um olhar estetizante desses conflitos. Por essa razão, a montagem cadenciada oferece alguns caminhos possíveis para respostas entre as cenas, remontando a história local a partir de fotos e falas, quase como uma aula expositiva. Esse dispositivo funciona muito bem como uma apresentação das particularidades do conflito inerente a histórica da região, demonstrando a dificuldade enfrentada pelo povo que ali habita, o caráter ancestral de suas trajetórias e o impacto que as enchentes provocam na vida das pessoas. Nesse caminho, é muito interessante a forma como Cris utiliza o recurso dos sons para ilustrar e contextualizar a partir das imagens, reforçando um certo didatismo assumido pelo projeto, que vai ganhando importância à medida que a projeção progride. Não por acaso, há uma explicação direta do significado de “Cambaúba”, definido no longa como o nome de um bambu que os indígenas usam para construir suas flechas. 

Enquanto os fantasmas do passado passam a se materializar na tela, os debates vão se amontoando, desde esse passado histórico recente até os problemas de agrotóxicos que atingem a população da região. Por essa razão, os cruzamentos temporais parecem cada vez mais vividos, transformando essas aproximações em verdadeiros atravessamentos diretos, onde a oralidade de todas essas dimensões vai ganhando um corpo cada vez mais nítido. É onde “Cambaúba” encontra seu desfecho, a partir de um sonho tão material quanto metafísico, onde a montagem ganha uma nova dinâmica, com interferências diretas na imagem, onde entidades de uma cultura simbólica brasileira passam a transitar na tela, com Malandro e Cigana dividindo espaço no quadro de representação. Aqui, a cineasta compreende a “resistência” a partir de uma outra dimensão, não como um royalty, mas enquanto um domínio da cultura nacional nas formas de combate à essa herança sangrenta que segue atormentando o povo brasileiro, ainda que no filme o recorte seja explicitamente regional, podemos compreender que há uma base ontológica para se compreender a situação do Brasil em sua “totalidade”, seja lá o que isso signifique propriamente. 

Os mitos e as figuras ancestrais conseguirem expurgar o fantasma de Bartolomeu, não é uma mera concepção idealista que a obra assume, mas sim uma representação que transita entre a espiritualidade e materialidade sem sobreposições nesta concepção de Brasil. Por isso o didatismo aqui é tão importante, para que não haja uma leitura enviesada. E para quem me acompanha há um tempo aqui Vertentes, sabe que tenho críticas ao caráter didático de determinadas obras, por uma certa compreensão tacanha que se faz do público, sem permitir que haja uma reflexão para além da exposição feita na obra. Porém, neste caso esse recurso não representa uma muleta, mas sim um cerco de determinadas ambiguidades que não seriam bem-vindas. 

E se “Cambaúba” teve uma repercussão tímida na Mostra Olhos Livres da Mostra de Tiradentes 2023, mesmo com seus méritos, pode ser por conta de uma passagem ou outra que possui uma montagem pouco efetiva, quebrando o ritmo das cenas. Mas o projeto não perde sua força por conta disso. 

3 Nota do Crítico 5 1

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