Barretão

Ode ao cinema brasileiro

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Ao ler o título o espectador pode se iludir acreditando tratar-se da carreira como Diretor de fotografia do Luiz Carlos Barreto, o Barretão, porém o foco desta produção é se concentrar em seu trabalho como produtor acima de tudo, traçando parte da cultura nacional e da história do Brasil no século XX, com os trabalhos do cineasta, coletando entrevistas do mesmo, depoimentos de terceiros e imagens de arquivo da época ou das obras que ele realizou.

O diretor, Marcelo Santiago, esforça-se em concretizar essa memória nacional através do nosso cinema e de um de seus nomes mais importantes. A tarefa segue a estrutura histórica original, a construção é feita de maneira lenta e gradual, seguindo cada acontecimento com fidelidade e acrescentando as falas do protagonista para ilustrar aquilo que não possui imagem. Tal postura é interessante por se relacionar com a tradição da narrativa oral. Essa divergência na linguagem gera uma postura diferente da natureza das coisas em si.

Enquanto o cineasta conta suas histórias, incluindo a fatídica vez que um militar confundiu Glauce Rocha com Glauber, o filme vai conceituar parte dessas narrativas em um amalgama de construção com verve histórica. E tal postura vai de encontro com parte do grupo de pensamento arcaico e que nega os fatos, acreditando sempre tratar-se de factoides. Essa recusa da história dialoga diretamente com uma questão contemporânea, ou atual, de uma parcela que recusou os neurônios que possuem.

As relações políticas que são apresentadas no longa, não dão margens à concretização das perguntas com os pontos históricos em si. E isso é um ponto positivo, já que negar a comprovação é abraçar a dúvida do abstrato do tempo. Barretão consegue narrar suas tramas com uma composição que adiciona ao documentário, dando voz aquilo que não possui imagem e traduzindo parte do sentimento com a própria estrutura do filme, enquanto este se assume parte de um processo criativo que respeita a tradição do protagonista. Elegendo a produção como trilho de uma linha que vibra no écran, de forma literal.

Infelizmente determinadas repetições de arquivo faz a montagem perder grande parte do ritmo durante a projeção, regendo de maneira a cruzar com as intenções do filme. A música, que busca uma dramatização desnecessária dos fantasmas do passado brasileiro, inclui uma falta de direção na proposição da conjuntura total. E essa questão viral cíclica que se perde em um limbo monorítmico, cria um esgarçamento nada bem-vindo durante a sessão, provocando o cansaço precoce no público. Marcelo claramente está mais preocupado em recontar essa memória nacional da cinematografia brasileira do Século XX, utilizando como suporte a carreira de Barretão.

A escolha gera uma frustração da própria demarcação temporal, pois cria um anacronismo de determinadas posições políticas e suas relações com o atual governo. As aproximações são claras, mas se tornam unilaterais por não problematizar a conjuntura dos debates neoliberais e de união com inclinações autoritárias. E essa oportunidade, que se perde, era importante para contextualizar a própria destruição do patrimônio cultural brasileiro, que vem como gatilho inicial da fruição das políticas de reacionarismo.

O documentário se esforça na conceituação de parte do trabalho do protagonista, tanto em sua parceria com Joaquim, Glauber etc. A importância de sua contribuição para o Cinema Novo e cinema brasileiro, é tamanha que vale a tentativa de transformar sua trajetória em obra cinematográfica. O cineasta realizou uma conjuntura tão concreta da realidade nacional em suas produções que se tornou um dos maiores ícones da história do cinema latino-americano. E essa redução continental é reduzida no início com o depoimento de diversos especialistas ao redor do mundo.

Ainda que haja problemas diretos com relação ao tempo que se decorre e suas possibilidades políticas, é eficiente em ser uma ode direta ao cinema nacional e à carreira de Barretão. Assim, é mais que uma homenagem ao personagem do título, mas também uma intensidade de imagens e narrativas nunca contadas de maneira tão direta, ou sem burocracia. A resolução formal desses problemas apontados, acabam aceitando parte de uma regularidade de produções documentais contemporâneas. Ainda que seja interessante ver como a conciliação é feita entre a imagem em si e das relações de feitura da mesma, assumindo essa duplicidade das consolidações da situação que se desenrola na tela.

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