Balanço e Premiação do Festival de Roterdã 2021

Drama indiano “Pebbles” vence o Tigre de Ouro de Melhor Filme

Por Fabricio Duque

A curadoria de um festival de cinema deve acima de tudo respeitar a própria essência por um recorte de selecionados que conversem entre sim. O Festival de Cinema de Roterdã 2021 manteve o foco na produção cinematográfica independente e experimental, apresentando talentos emergentes e autores estabelecidos. Criando assim um equilíbrio narrativo-atmosférico, muito pautado pela estranheza do etéreo personificado. Os filmes, assistidos em ordem de exibição, geram uma percepção aguçada, quase um dom, de comparação, sabendo se uma obra é boa ou não. Sim, todo e qualquer festival, ainda mais se houver premiação, o da Holanda não poderia ser diferente com seu Tigre de Ouro (Tiger Award), desencadeia uma crueldade padronizada do olhar.

O Festival de Cinema de Roterdã, que completa 50 anos (leia a matéria aqui), realizou a edição de 2021 quase majoritariamente online, com alguns encontros presenciais. Do dia primeiro até hoje (dia 07) de fevereiro, a mostra competitiva exibiu 16 longas-metragens, complementada pelas mostras Big Screen, Limelight e Ammodo Tiger Short Competition (de curtas-metragens), tudo pela plataforma digital Festival Scope Pro.

O Vertentes do Cinema realizou a cobertura integral. Entre trancos e barrancos por causa da conexão da plataforma, que, em muitos horários, travava pelo grande números de acessos. Assim, os 4 ou 3 obras da competição (com prazo de 72 horas), além das outras mostras, precisaram de dias para se restaurar. O que aconteceu? Todos os filmes “cavaram” uns nos outros, fazendo com que nosso site necessitasse assistir a 6 filmes por dia para finalizar a programação e não perder nada. Assim foi feito. Desafio cumprido.

Foram 15 filmes da Tiger Award (faltou apenas um, o longa chinês “Bipolar”, de Queena Li, que não foi liberado pelos produtores para a exibição online). Da mostra Big Screen, o brasileiro “Carro Rei” e o mais recente da realizadora Ana Katz, “El Perro que no Calla”, este também exibido na mostra Mundo do Festival de Sundance deste ano. Da mostra Limelight, o potente “Quo Vadis, Aida?”, de Jasmila Žbanić, que esteve na competição do Festival de Veneza 2020; “Beginning”, de Dea Kulumbegashvili, em produção por João Lanari Bo, estreou na plataforma digital Mubi (aproveite!); e “Suor”, de Magnus von Horn, que passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, depois da edição anunciada (e não acontecida) do Festival de Cannes 2020. Infelizmente, a cobertura do Vertentes do Cinema foi prejudicada, mas está longe de acabar. Até domingo que vem todas as críticas estarão publicadas. Acompanhe no site!

A PREMIAÇÃO DO FESTIVAL DE ROTERDÃ 2021

A Cerimônia de Premiação do Festival de Cinema de Roterdã 2021 (IFFR) aconteceu hoje, dia 07/02, às 17 horas (quatro antes no Brasil, uma hora da tarde no horário de Brasília). A diretora do festival Vanja Kaludjercic disse: “Nestes tempos mais desafiadores, estamos incrivelmente orgulhosos de ter trazido uma seleção excepcional de títulos em nosso formato de festival reimaginado. A expansão da Competição Tiger incluiu 16 filmes que refletem a pluralidade de vozes e visões de talentos que continuarão a oferecer grande cinema nos próximos anos. O que aprendemos com essa experiência é que, por mais resiliente que seja a indústria, o mesmo acontece com nosso público, que abraçou e celebrou totalmente o primeiro capítulo do festival deste ano.”

Após ter assistido a todos os filmes da competição, o Troféu Vertentes do Cinema escolheu “Liborio”, de Nino Martinez Sosa, da República Dominicana, como Melhor Filme; “Madalena”, de Madiano Marcheti, como Prêmio Especial; e “Quo Vadis, Aida?”, de Jasmila Žbanić, como o Melhor de todo o Festival.

TIGER AWARD

O Tiger Award celebra o espírito inovador e aventureiro de cineastas promissores de todo o mundo. O prêmio de maior prestígio do IFFR inclui € 40.000 a ser dividido entre cineasta e produtor, bem como dois prêmios especiais do júri no valor de € 10.000 cada.

Júri: Lemohang Jeremiah Mosese, Orwa Nyrabia, Hala Elkoussy, Helena van der Meulen, Ilse Hughan

TIGRE DE OURO

PEBBLES, de Vinothraj P.S.

Justificativa do júri: “Em meio a muitos trabalhos admiráveis ​​e ambiciosos, o júri ficou pasmo com um filme aparentemente simples e humilde pelo qual nos apaixonamos instantaneamente. Criando o máximo de impacto com o mínimo de meios, o cineasta atinge seu objetivo com a mesma convicção e determinação de seus personagens principais. O resultado é uma aula de cinema puro, que nos cativa com sua beleza e humor, apesar de seu tema sombrio.”

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI

I COMETE – A CORSICAN SUMMER, de Pascal Tagnati

Justificativa do júri: “Neste agradável devaneio mediterrâneo sobre sua aldeia natal, o diretor nos mostra em uma abordagem observacional a vida cotidiana que se centra nos amigos, futebol, infidelidade, fertilidade e tradições familiares. No início, o espectador é apenas uma testemunha dessas fatias da vida na aldeia da Córsega, mas gradualmente você começa a se sentir parte dela e se familiariza com os moradores e seus sonhos, medos e sua alegria de viver coletiva. I Comete – A Corsican Summer é uma verdadeira carta de amor da humanidade que nos foi trazida através de um olhar refrescante sobre o cinema contemporâneo.”

LOOKING FOR VENERA, de Norika Sefa

Justificativa do júri: “Com contenção deliberada e sinceridade despretensiosa, trabalho de câmera e som se unem para capturar uma fatia íntima da vida, onde o que foi varrido às pressas para baixo do tapete é quase esquecido. Em Looking For Venera, as minúcias monótonas do dia a dia são delicadamente imbuídas da busca precária, mas resiliente, para encontrar o seu eu jovem.”


PRÊMIO VPRO TELA GRANDE

O vencedor do prêmio VPRO Big Screen é escolhido por um júri de cinco membros dedicados do público. O filme tem estreia garantida nos cinemas holandeses e será transmitido na TV holandesa pela VPRO e NPO. Além disso, é atribuído um prêmio de 30.000 €, partilhado igualmente entre o realizador e a distribuidora que lança o filme.

Júri: Mauro Corstiaans, Oriana Baloriano, Frits Bienfait, Magda van Vloten, Mirjam van den Brink

EL PERRO QUE NO CALLA, de Ana Katz

Justificativa do júri: “O filme que escolhemos como vencedor deixou uma grande impressão em todos nós. O filme dá o tom desde o início com uma cena de abertura brilhante e à medida que a história se desenrola, somos atraídos para o cotidiano de um jovem que tenta encontrar seu lugar em um mundo que, a certa altura, se torna estranhamente familiar. No entanto, é uma história de esperança e otimista, sem abrandar os desafios especialmente para os mais jovens. A diretora poderia ter abordado essas questões em um filme social-realista mais ou menos convencional, mas em vez disso ela fez algumas escolhas radicais em relação à narrativa, estrutura e cinematografia. Acreditamos fortemente que este filme ganhe um lançamento nos cinemas holandeses e esperamos que este prêmio contribua para isso.”


PRÊMIO ROBBY MÜLLER

O Prêmio Robby Müller homenageia um “criador de imagens”, o diretor de fotografia e artista visual holandês, recentemente falecido. Robby Müller (que fotografou “O Amigo Americano”, de Win Wenders, “Dançando no Escuro”, de Lars von Trier, além de mais de 74 títulos listados no IMDB), criou uma linguagem visual autêntica, credível e emocionalmente marcante em toda a sua obra. O prêmio é uma colaboração entre o IFFR, a Sociedade Holandesa de Cinematographers (NSC) e Andrea Müller-Schirmer, esposa de Robby Müller.

Nesta edição de 2021, a aclamada cineasta americana Kelly Reichardt (de “First Cow”) recebeu o prêmio anual Robby Müller no IFFR 2021.

Justificativa do júri: “Vemos em Kelly Reichardt, não apenas uma independência libertadora e clareza de visão estética, mas também alguém que, de forma evidente, dá continuidade ao legado de Robby Müller. Eles compartilham o talento de retratar a paisagem americana em toda sua variedade, muito mais do que um personagem coadjuvante, e de retratar os humanos da maneira mais sutil e sensível. Ambos são capazes de visualizar o que não pode ser expresso em palavras, criando imagens puras e não forçadas nas quais a narrativa pode se desdobrar e evoluir, e o olhar do espectador pode vagar.”


PRÊMIO AMMODO TIGER SHORT DE CURTAS-METRAGENS

No Ammodo Tiger Short Competition, 22 filmes entre 1 e 63 minutos de duração competem por um dos três prêmios iguais no valor de € 5.000.

Júri: Anna Abrahams, Amira Gad, Vincent Meessen

Filmes vencedores: “Sunsets Everydays” (Pôr do Sol, todos os dias), de Basir Mahmood; “Terranova” de Alejandro Pérez Serrano e Alejandro Alonso Estrella e “Maat Means Land”, de Fox Maxy.

Júri do “Sunsets Everydays” (Pôr do Sol, todos os dias): “Este é um filme ousado que usa ferramentas cinematográficas, pistas visuais e simbólicas para convidar o espectador para um assunto sensível. O júri ficou impressionado com a capacidade do cineasta de ter realizado um trabalho tão complexo remotamente. Na obra, o artista desafia a autoridade do cineasta e abre a agência do espectador. É um trabalho em camadas que envolve o espectador em um processo íntimo, que deve ser decodificado e criptografado e que nos obriga a testemunhar e considerar ativamente os detalhes apresentados a fim de obter uma compreensão da narrativa subjacente. O cineasta adota uma abordagem sensível a um assunto delicado, levando o espectador a uma jornada emocional que transpõe ambientes dominados por homens com domesticidade e que oferece um olhar mais atento para eventualmente diminuir o zoom para a imagem maior.”

Júri de “Terranova”: “Este filme dá as boas-vindas a uma cidade imaginativa. Cada cena oferece uma visão fantasmagórica e uma paisagem sonora de uma paisagem urbana em transformação. Tanto o filme quanto o mapeamento da cidade se desenvolvem livremente em um processo orgânico de meandros. Ele escapa e reconstrói espaços, oferece uma nova visão do documentário experimental e reimagina o realismo mágico dentro do filme. Os diretores conhecem bem a sua história cinematográfica: a obra é uma nova abordagem ao gênero da sinfonia da cidade. Aqui não há lugar para a racionalidade: nenhum caminho certo ou errado, mas bifurcando um caminho. Ele visualiza uma cidade em fluxo, onde cada estrada leva você magicamente a um lugar surpreendente e inspirador.”

Júri em “Maat Means Land”: “Com uma edição nítida, o cineasta mantém o espectador na ponta da cadeira. Se esta colagem inteligente pertence a um nativo digital de nossa era pós-mídia, ela também está inserida em outra compreensão do “nativo”: a das Primeiras Nações e sua luta sem fim pela desalienação do tecido colonial urbano e cultural . É uma visão do processo das organizações de base para negociar o tecido social das sociedades ocidentais e a evolução dessa coexistência. Documentando seu próprio retorno às terras pertencentes a seus ancestrais na Califórnia, o diretor visita e presta homenagem a outras comunidades das Primeiras Nações. O filme se torna uma ferramenta capacitadora para unir forças, falar e alcançar públicos inesperados em todo o mundo.”

Além disso, o IFFR também nomeia “Flowers blooming in our throats (Flores desabrochando em nossas gargantas)”, de Eva Giolo para a categoria de curta-metragem do European Film Awards (EFA), que será apresentado na cerimônia EFA em dezembro de 2021.


PRÊMIO DO PÚBLICO BANKGIROLOTERJI 

Após as exibições online no IFFR.com, os membros da audiência que compraram um ingresso são convidados a avaliar o filme por meio de votação online. O Prêmio do Público BankGiro Loterij, no valor de 5.000 €, é atribuído ao filme que obteve a classificação média mais elevada na sondagem do público do festival.

QUO VADIS, AIDA? de Jasmila Žbanić


PRÊMIO FIPRESCI

The Edge of DaybreakUm júri de jornalistas de cinema internacionais da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique concede o Prêmio FIPRESCI ao título de destaque da Competição Tiger.

Júri: Veronika Zakonjsek, Jihane Bougrine, Salvatore Marfella, Ronald Rovers, Paula Ruiz

THE EDGE OF DAYBREAK, de de Taiki Sakpisit

Justificativa do júri: “Por sua atmosfera misteriosa e rica imagética na representação de trauma e violência, por sua capacidade de lidar com 40 anos de turbulência política por meio de uma jornada cinematográfica poderosa e hipnótica e por seu compromisso com o passado para confrontar o presente e o no futuro próximo, o prêmio FIPRESCI para IFFR 2021 vai para The Edge of Daybreak de Taiki Sakpisit.”


PRÊMIO KNF

Um júri do Kring van Nederlandse Filmjournalisten (Círculo de Jornalistas de Cinema Holandeses) selecionou seu destaque no Concurso Ammodo Tiger Short para o Prêmio KNF.

Júri: Leo Bankersen, Lisa van der Waal, Ruud Vos, Sebastiaan Khouw, Jim Pedd

MANIFESTO, de Ane Hjort Guttu

Justificativa do júri: “Este filme parece um documentário, mas você começa a se perguntar se o que você vê é real. Nada, entretanto, está mais longe da verdade. Ele faz uma declaração clara sobre a natureza da arte e serve como uma metáfora dessa noção. É uma sátira sobre os desenvolvimentos na sociedade contemporânea, sobre como tentamos empurrar a liberdade para certos padrões sistêmicos. O filme se destaca por seu enquadramento justo e composições bem pensadas.”


PRÊMIO DO JÚRI JUVENIL

O Prêmio do Júri Juvenil do IFFR é concedido ao filme que mais impressionou o júri de jovens do IFFR 2021 baseado em Rotterdam.

Júri: Goran Bouaziz, Bogdan Fecioru, Toer Olsthoorn, Carice van Heusden, Teun Broer

LA NUIT DES ROIS, de Philippe Lacôte

Justificativa do júri: “O filme que escolhemos como vencedor é uma mistura inovadora de gêneros que celebra as muitas tradições de contar histórias de uma forma extraordinariamente atmosférica. É um filme interdisciplinar que combina música, dança e elementos teatrais para contar sua história. Ele destaca com sucesso a profundidade muitas vezes esquecida da cultura africana e mitologia de uma forma que é inovadora, encantadora e nunca deixa de envolver.”

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