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Babilônia

Sonho e delírio em Los Angeles

Por Pedro Sales

Babilônia

“Caiu! Caiu a grande Babilônia!
Ela se tornou habitação de demônios e antro de todo espírito imundo,
antro de toda ave impura e detestável,

pois todas as nações beberam do vinho da fúria
da sua prostituição. Os reis da terra
se prostituíram com ela; à custa do seu luxo excessivo
os negociantes da terra se enriqueceram”.  

Apocalipse 18:2-3

Na Hollywood dos anos 20, a vida era uma festa cheia de devassidão e loucura. O diretor Damien Chazelle, vencedor do Oscar de direção por “La La Land” (2016), retorna aos tempos do cinema silencioso em que a quietude existia apenas nas películas, o show-business, por assim dizer, fervilhava socialmente, regado a whisky com gelo, ocupado da onipresente fumaça do cigarro e também de drogas mais pesadas (pó, éter, heroína, a escolha é do cliente). Ao mesmo tempo que a nobreza se deleitava com seus banquetes orgiásticos – Sodoma e Gomorra, para continuar na analogia bíblica –, a ralé limpava tudo e esperava por sua chance. “Babilônia” explora o carnal e exagerado, contrapondo com os anseios dos comuns. Todos sonhando em participar daquilo não como subalterno ou penetra, e sim como anfitrião. O desejo é ser descoberta como estrela –  não se tornar uma, porque ela já se considera assim – , é poder pisar em um set de filmagens pela primeira vez e ver a magia cinematográfica diante de seus olhos.

O cineasta possui um grande desafio de unir o caótico ao dramático. A frenética e alucinante introdução mostra todos os excessos da festa na casa de um produtor. Tudo começa pela arquitetura medieval evocada na casa, dentro não é menos ostentoso. Entretanto, a vulgaridade dos convidados, das atrações e dos anfitriões faz da simples festa quase um bacanal. A câmera observa tudo, não deixa passar nada. Por meio de planos-sequência e do constante uso do efeito-chicote, as lentes passeiam pelo local, olhando cada um deles. Isso é feito, claramente com uma velocidade alta, o que traz um dinamismo visual e constrói uma crescente sensação de ansiedade, em que o espectador não consegue respirar. O caráter é quase carnavalesco com anões, falos e elefantes, à moda de Fellini, pendendo ao “Casanova” (1976), do burlesco e libertino. O frenesi de essência delirante não se mantém apenas nas festas, o próprio set compartilha dessa loucura. Um diretor alemão chamado Otto (seria uma homenagem ao Preminger?) grita incessantemente, perde câmeras, todavia no final consegue um belo plano em contraluz. É uma vitória, não perderam o dia de filmagem.

A dramaticidade e o consequente afastamento do caos, por outro lado, surge em Nellie (Margot Robbie) e Manuel (Diego Calva). Ambos são, no âmago, gêmeos, pelo menos no desejo em fazer parte do cinema. Cada um tenta, a sua maneira, entrar na indústria. Ela na frente das câmeras, ele, por trás. Se Chazelle apresenta o cinema como devasso e excessivo, ao mesmo tempo ele realiza a antítese de colocá-lo como mágico. Um simples acaso pode tornar um sonho em realidade, uma garota que, por estar bêbada demais, não pode ir para as filmagens, ou uma carona para o astro Jack Conrad (Brad Pitt) que abre portas inimagináveis. O filme lida, portanto, com essa dualidade: uma indústria cheia de vícios, mas que produz magia. Não há romantização do caminho percorrido, a não ser pela entrada. No final, todos devem lidar com dilemas éticos e morais para galgar sucesso em Hollywood.

“Babilônia” não é precursor da metalinguagem, contudo é audacioso em tentar mostrar com crueza seus bastidores. Para mim, o filme de Damien Chazelle é, além de ser metalinguístico, um filme-de-cinéfilo. Não um longa que necessariamente vai agradar os cinéfilos, mas feito por um. Existem dois tipos desses filmes, os memoriais que exploram a relação do autor com o cinema como “Os Fabelmans”, de Spielberg, e “Belfast” (2021), de Kenneth Branagh. Do outro lado, estão os industriais, que investigam Hollywood enquanto mercado, como “O Artista” (2011), de Michel Hazanavicius, e “Mank” (2020), de David Fincher. A obra de Chazelle se enquadra no último grupo, ao passo que parte da perspectiva histórica do fim do cinema silencioso e do surgimento do cinema falado, assim como a obra de Hazanavicius.

A mudança e a quebra do paradigma representam a queda da Babilônia. Os poderosos e chefões, produtores como o fictício Don Wallach e o real Irving Thalberg apenas abraçam as mudanças, enquanto os artistas lidam com a transitoriedade da fama e devem se reinventar para entrar neste novo padrão. A voz de uma parece estridente demais, o outro gera gargalhadas do público ao dizer “eu te amo”. Junto disso, existe uma dificuldade imensa para captar o som, o que é elucidado em uma angustiante e repetitiva cena. O astro de antes vira o ninguém de agora, é deixado no ostracismo, é esquecido pelos estúdios, o que acarreta em um processo denso de depressão. No momento de tomada de consciência do seu iminente fim, há um dos monólogos mais impactantes do longa sobre a permanência da imagem e a preservação do legado através do cinema. Os impactos da mudança parecem ser morais também, é como se o pudor do Código Hays entrasse em vigor nas próprias vidas. O moralismo condena e julga todos os excessos dos artistas. Nellie, que era unanimidade nas festas, se torna uma pessoa vulgar, a ser domada para retornar aos holofotes.

Mas nem tudo são flores. Apesar do claro apuro técnico de “Babilônia”, o filme sofre com seu ritmo. Não é fácil realizar um filme de três horas de duração, e mais difícil ainda é manter o interesse ao longo desse tempo. Um problema claro é a distribuição de tela e dos focos narrativos, Sidney Palmer (Jovan Adepo) e Fay Zhu (Li Jun Li) também vivem o sonho hollywoodiano, no entanto, são coadjuvantes em um enredo que, a princípio, parecia que iria ser homogêneo. Além disso, durante o meio do longa, ele perde o frenesi do início e pende a um drama mais fraco que o restante da obra, apenas o de Nellie causa arrebatamento, devido à performance de Robbie. Assim, a montagem consegue produzir as sensações mais malucas no espectador, porém não consegue abranger os saltos temporais de maneira fluida. A fluidez que falta à montagem, sobra para a trilha sonora, assinada por Justin Hurwitz, frequente colaborador de Chazelle. A música usa o jazz e as big bands, com as agudas notas dos naipes de metais para dar corpo às festas e evocar dramaticidade em dados momentos. O ritmo musical se associa, ainda, com a própria trajetória de Palmer, que é trompetista.

A obra faz uma homenagem peculiar ao cinema, retratando seu lado mais vil (nas relações entre produtores-artistas) e oculto (vícios e libertinagem). A homenagem reside, sobretudo, na representação do sonho hollywoodiano, dos tolos que sonham, como na canção de Mia em “La La Land”. No final catártico da obra, há a coroação de tudo que o cinema é, com inserções de todo o mundo. A conclusão explora também uma relação que, para aqueles com um repertório maior, já era evidente, mas a paixão com que esse tributo é feito o deixa ainda mais gracioso. “Babilônia” é um mergulho alucinante na velha Hollywood, com uma alta carga de erotismo (em especial, por Nellie) e depravação. Os eventuais entraves, com uma linha temporal um pouco descontínua e truncada, são meros detalhes diante do caos frenético proposto e colocado em tela.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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