Atlântida

Ode à inocuidade plástica

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de SP 2021

Existem certos filmes que decidem não propor uma discussão e apenas a contemplação de imagens que seriam capazes de formalizar, ou sustentar, uma base narrativa. “Atlântida”, de Yuri Ancarani, é o pior dos casos. Com uma série de imagens bonitas e contrastes acentuados, o longa procura um encantamento imediato do espectador nessa construção de um universo ditado pela beleza, onde lanchas e pessoas vagam pelas águas. O ritmo é tão arrastado e tudo tão desinteressante que é possível questionar a falta de atenção para algumas narrativa que está sendo desenvolvida. Mas a proposta é vaga ao ponto do inócuo, onde tudo deve se sustentar nesse fluxo que se encerra em um fatalismo do ócio, da falta da proposição e do “não pertencimento” à sociedade convencional.

É de uma histeria que pretende o estancamento estético no transe plástico e atinge um ansiolítico profundamente cansativo e tedioso. Uma espécie de “Rio Perdido”, com A24 e jovens que não sabem como gastar seu tempo. Sem dúvida é um projeto que os festivais mais internacionalizados procuram incluir na programação, aliás o público alvo desses projetos arthouse de quinta categoria estão justamente nessas seleções que argumentam em favor de uma estética. Talvez seja um sintoma da diluição das problemáticas de uma indústria que cada vez mais investe na produção de imagens estonteantes e a contrapartida do cinema independente é responder por seu existencialismo pífio que procura a beleza na prosa da antítese gloriosa. Tão esvaziado de sentido e propósito quanto o que dizem combater, filmes como “Atlântida” ganham cada vez mais espaço nos festivais da Europa e do Sul Global, encontrando uma correspondência dessa forma que não se completa ou se mantém em um movimento constante para concretizar o “perene” dessa produção de imagens, ou a anti-encenação.

O esvaziamento do sentido, provocado pelos estruturalistas ou por mera reatividade política dos países capitalistas centrais, foi incorporado como expressão cinematográfica e exibido à exaustão nos grandes festivais. A curadoria impôs, virou mais um modismo passageiro dessa indústria paralela e é fomentado pelas necessidades de uma “experiência em sala de cinema”. Por mais que haja alguma beleza em um plano ou outro, com luzes e cores que chamam atenção, a projeção na grande tela não iria salvar um fiasco desse tamanho. É impossível se conectar aos seus personagens ou a pseudo história que está por trás, já que não existe um propósito para esse fluxo de imagens que aliadas às músicas que procuram suspender a crença da realidade, apenas deslocam tudo para a baixeza estética de “não permanência”. A trilha sonora em si, até consegue se destacar brevemente, procurando criar alguma atmosfera nessa mar de coisas sem sentido, mas acaba ajudando a fixar esse fetiche estoicista.

Entre tensões, desejos, sexualidades e falta de perspectiva, “Atlântida” afundou como o título e parece procurar algo no meio da produção, tanto nas cores e movimentos, como nas lanchas e intrigas internas que só poderiam ser compostas por falar reflexivas e fatalistas que procuram o fim das coisas na própria resolução dramática de uma vida levada ao extremo do perigo. Desajeitado, confuso e chato, o filme exibido na Mostra de SP possui alguns irmãos de espírito, em exibição na programação, que receberão suas críticas em breve, o que já demonstra uma lista complexada com os nortes da produção tacanha from algum desajuste formal. Falência moral de uma cinematografia que debateu a história e a materialidade da formação política do consenso, da homologação cultural. Hoje, o cinema italiano que é exibido na América Latina nos mostra duas coisas: pastiche das comédias norte-americanas e francesas, além de uma pseudo reflexão imagética de estruturalismos diversos. Uma pena, a farsa se repete a partir da ideologia dominante.

E como boa parte do catálogo, diversos problemas com a sincronia da legenda foram vistos aqui.

Trailer

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