Amor, Casamentos & Outros Desastres

Ressaca pandêmica

Por Vitor Velloso

“Amor, Casamentos & Outros Desastres” de Dennis Dugan é uma daquelas obras que o espectador não entende quem liberou a verba para a produção de uma das maiores pataquadas do ano. Com um elenco repleto de grandes nomes (Jeremy Irons, Diane Keaton) que pode atrair algumas vítimas, o filme busca agredir cada parte funcional do cérebro do público. Cada segmento do longa está direcionado à vergonha alheia e ao constrangimento de estar diante de uma projeção tão… triste. Despejando uma quantidade estrondosa de personagens, sem que haja um motivo minimamente plausível para isso, trabalhando em torno de ideias clichês e uma fragmentação da narrativa, tudo perde o propósito. 

É possível que a vítima que vislumbra os créditos finais de “Amor, Casamentos & Outros Desastres” sinta-se ofendida. Após quase uma hora e quarenta, a própria trama é um mistério, temos diversos eixos, embaraçosos, que estão ali para cumprir a cartilha máxima do clichê e reconstruir a ideia das ontologias ligadas pela idealização das instituições conservadoras. Entre as pedaladas desengonçadas dos atores, fica cada vez mais claro que não há uma diretriz que norteia o filme. A linha das históricas curtas que deveriam se entrelaçar, soa tão natural quanto o pouso de albatroz. Tudo parece corrompido pelo vexame total, algo que Dennis Dugan conhece como poucos, aliás a carreira inteira do diretor é desse nível para baixo. De qualquer forma, Dugan conseguiu fazer uma das coisas mais atrozes da década, em seu início ainda… Ele vai se superar ainda. 

A chegada desse barato aos cinemas brasileiros, retorna ao ciclo dos desgraçados e malditos. Maldito o que realizou, desgraçado o que se aventura na produção do maldito. Keaton e Irons vão atrair um batalhão de vítimas que irão lamentar o anseio por “algo besta para distrair a cabeça”. Se o lá de cima escreve em linhas tortas, “Amor, Casamentos & Outros Desastres” é uma caneta estourada. 

Ao som de Poze xingando o Nego Di, o espectador irá vociferar contra os clichês, atores que continuam carimbando a deterioração de suas aparências, de Diego Boneta a Maggie Grace, e cenas de um mau gosto profundo. As cenas em sequência, aqui chamada equivocadamente de longa, está no nível de um Rob Schneider em suas propaladas diante de uma objetiva. Nem um plano é capaz de salvar a preguiça episódica de Dennis Dugan, que caso recorresse ao dispositivo de maior exposição, dialogando com a linguagem da novela, se sairia melhor que a convenção de clichês sem estrutura dramática que se instaura aqui. Essa maldita incoerência faz com que a fragilidade do projeto se torne o carro-chefe de quase uma e quarenta de sofrimento. 

“Vai-se por mim à película dolente, vai-se por mim à sempiterna dor, vai-se por mim entre a perdida gente. Moveu Justiça o meu alto feitor, fez-me a divina potestade, mais o supremo saber e o primo amor. Antes de mim não foi criado mais nada senão eterno, e eterna eu duro. Deixai toda esperança, ó vós que entrais no cinema.” Dennis em entrevista à Jovem Pan. 

Na onda dos sketches mais nocivos à sanidade mental, o barato vai desembocando no desespero de ver os minutos avançando sem que haja um fim pro sofrimento. Além de vergonhoso, tedioso e desinteressante, existem excessos que comprometem ainda mais que “Amor, Casamentos & Outros Desastres” seja minimamente assistível. Cada pessoa envolvida no filme deveria responder um processo. E se rever alguns desses clichês nos relembra das piores propaladas do cinema industrial, o espectador ficará surpreso com a dificuldade de chegar ao fim da projeção. 

Nenhuma crítica, comentário e/ou resenha será o suficiente para descrever o quão desagradável é assistir o novo filme de Dennis Dugan, que não decepciona e entrega uma das piores coisas da década, novamente. O desgosto é inevitável e a sensação é semelhante à enfrentar uma terrível ressaca com o gosto amargo do fígado ferido. A enxaqueca piora ao lembrar que a distribuição está ocorrendo no período pandêmico. 

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