Quando o trash falha em ser trash
Por Pedro Guedes
“Abigail e a Cidade Proibida” é mais um destes filmes russos que usam a desculpa de pertencerem ao gênero “trash” para massacrarem o espectador com efeitos visuais pavorosos, diálogos imbecis e histórias sem pé nem cabeça. Arrastando-se ao longo de duas intermináveis horas de duração, o longa vem na mesma esteira de obras como “Os Guardiões”, “A Noiva” e “A Sereia: Lago dos Mortos” – e, seguindo o exemplo destes outros projetos, confunde “precariedade proposital” com “desculpinha esfarrapada para entregar qualquer porcaria para o público”. Não é muito diferente do que a série “Sharknado” faz nos Estados Unidos, tornando-se tão doloroso quanto.
Dirigido por Aleksandr Boguslavskiy e roteirizado por ele e por Dmitriy Zhigalov, “Abigail e a Cidade Proibida”… bem, conta uma historinha confusa, chata e desinteressante. No futuro (sei lá quando), uma cidade é isolada pelo governo depois que um vírus mortal toma conta de seus habitantes – entre estes, está a jovem Abigail, cujo pai foi infectado pela tal epidemia e levado embora pelos guardas que vigiam a cidade. Ao crescer e chegar à vida adulta, Abigail decide partir em busca de seu pai, o que, na prática, implica em sair no braço com os guardas – e, conforme vai prosseguindo em sua jornada, a heroína conhece várias pessoas e descobre ter superpoderes mágicos. E mais: a cidade também tem seus superpoderes mágicos. Não procuremos muito sentido nesta premissa, pois já está claro que não há nenhum.
Obviamente influenciando-se na mesma estética steampunk de obras como “Máquinas Mortais” e o game “Bioshock: Infinite”, “Abigail e a Cidade Proibida” basicamente copia boa parte do que já vimos nestas produções (e em muitas outras) através de seus figurinos, dirigíveis e conceitos visuais – e esta falta de imaginação é algo que a fotografia de Eduard Moshkovich tenta compensar ao investir em uma saturação de cores esteticamente instigante, contrapondo tons notáveis de verde-esmeralda, azul e vermelho de maneira razoável. Mas isto é o máximo que dá para ser dito sobre o projeto, que, do primeiro fotograma ao último, é continuamente sabotado pela trilha sonora de Ryan Otter (que faz questão de mastigar praticamente tudo que o espectador deveria sentir do início ao fim) e, claro, pela direção pavorosa de Aleksandr Boguslavskiy, que investe em uma mise-en-scène reduzida a planos/contraplanos básicos e transforma as sequências de ação em uma combinação desastrosa de planos em câmera lenta e efeitos visuais ridículos.
Mas é claro que, a esta altura do campeonato, alguém sempre perguntará se, ao menos, o filme é capaz de entreter (para mim, só os problemas que citei no parágrafo anterior já são o suficiente para comprometer boa parte do divertimento, mas… enfim). E a resposta não poderia ser outra: não! Além de representar um imenso constrangimento estético/técnico, “Abigail e a Cidade Perdida” ainda comete o erro de ser simplesmente… chato.
Como se não bastasse a trama ser terrivelmente estúpida, sem sentido e desestruturada (a narrativa não apresenta nenhum foco, soando ilógica e nem um pouco coesa), o ritmo estabelecido por Boguslavskiy consegue agravar o problema ao converter uma premissa que já não era das mais interessantes em um tédio absoluto – e, para piorar, a estrutura cronológica da narrativa oscila entre momentos no presente e flashbacks que, no fim das contas, servem apenas para prejudicar ainda mais o andamento da história. Isto porque não mencionei os diálogos expositivos: quando Abigail percebe que sente falta do pai, ela diz “Sinto falta do meu pai!” (ou algo assim – confesso que a maior parte do filme já se dissipou em minha memória, então… me perdoem pela falta de precisão).
Soando como uma colagem insuportável de vários momentos retirados de filmes melhores (e diluídos pela incompetência atroz de Boguslavskiy), “Abigail e a Cidade Perdida” só poderia ser pior caso tivesse sido exibido para a imprensa brasileira em sua versão dublada. E… bem, foi exatamente o que aconteceu; portanto, não me sinto à vontade para discutir as performances do elenco e o trabalho de mixagem/edição de som, pois a cópia mostrada para nós, críticos, estava distorcido pela péssima dublagem. Ainda assim, os demais elementos que compõem a obra são o suficiente para me levar a deduzir, inevitavelmente, que “Abigail e a Cidade Perdida” é, na melhor das hipóteses, um dos piores filmes de 2019.