Crítica: Sereia – Lago dos Mortos

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Como não fazer terror e ou suspense

Por Pedro Guedes


Não é fácil, para um cineasta, fazer o público rir, chorar, sentir medo, ansiar pelo que vai acontecer em seguida e até mesmo se envolver com o que está acontecendo em um filme – e não é à toa que existe toda uma ciência por trás de cada sentimento que é plantado no espectador através das decisões tomadas pelo realizador. Saber construir suspense é algo fundamental em um bom filme de terror: existe o pressentimento de que algo impactante ocorrerá, mas não fica claro exatamente o que ocorrerá. No caso de um bom suspense (frequentemente incluído – mesmo que perifericamente – em um terror), a expectativa está presente, mas o significado desta expectativa permanece em sigilo até que ela se cumpra.

Para constatar um mau exemplo de suspense (em um filme de terror), basta assistir aos primeiros 15 minutos de “A Sereia: Lago dos Mortos”: há uma sequência de abertura que explica cuidadosamente o universo fantástico no qual a trama se passará, deixando claro o que é uma sereia, onde ela vive e como ataca os homens que enfeitiça; imediatamente depois, no entanto, surge uma cena em que o personagem de Igor Khripunov se encontra diante de um lago e começa a temer pelo que acontecerá a seguir. Em tese, a expectativa está formada (o que acontecerá com o sujeito e/ou com a mulher que está próxima a ele?) – o problema, porém, é que a abertura que veio poucos minutos antes fez questão de escancarar, para o expectador, exatamente o que acontecerá naquela cena (uma sereia virá e atacará o sujeito e/ou a mulher que está próxima a ele). Se sabemos qual será o final daquela antecipação, então… por que antecipar?

Dirigido pelo mesmo Svyatoslav Podgaevskiy do terror “A Noiva” (que foi mal recebido tanto pela Crítica quanto pelo público), “A Sereira: Lago dos Mortos” conta uma história que já fica óbvia a partir do título do filme: uma sereia surge na vida de um pequeno grupo de jovens e começa a aterrorizá-los. A partir daí, a protagonista Marina (vivida por Viktoriya Agalakova) começa uma breve investigação para enfim resolver este longo mistério, descobrindo detalhes assustadores a respeito das sereias, da mitologia entorno delas e dos métodos que elas utilizam para conter suas presas. Ah, e há um detalhe que não deve passar em branco: a trama se passa nos dias atuais – e a premissa de atualizar um conceito como o das sereias é algo promissor.

É uma pena que o roteiro (escrito pelo próprio Podgaevskiy ao lado de Natalya Dubovaya e Ivan Kapitonov) sequer tente fazer jus ao potencial desta premissa: atirando, nos minutos iniciais, uma “metáfora” tola e dispensável que envolve o fato da protagonista não saber nadar (algo que o próprio filme ignora no terceiro ato, quando a mesma personagem mergulha num lago para combater as sereias), o trio de roteiristas mal consegue escolher uma persona para transformá-la em centro da narrativa, já que, embora se estabeleça como a protagonista, Marina é ocasionalmente esquecida pelo próprio roteiro (que, nestes momentos, passa a se concentrar demais em outros personagens). E se o terceiro ato traz uma série de pequenos instantes em que os heróis descobrem formas de combater a vilã de maneira completamente inusitada (como eles sabiam que fazer “tal coisa” poderia fragilizar a sereia?), estes ao menos não embaraçam tanto quanto a quase reviravolta que é proposto nos minutos finais da projeção, quando Podgaevskiy tenta deixar o espectador em dúvida quanto ao que acabou de ver.

Mas se há algo que realmente prejudica “A Sereia: Lago dos Mortos”, este é o trabalho de Svyatoslav Podgaevskiy como diretor: incapaz de construir um único momento de tensão ou horror que funcione de fato, o cineasta apela indiscriminadamente para o recurso dos jump scares, porém sem saber empregá-los de forma minimamente eficaz (Podgaevskiy que me perdoe, mas aumentar subitamente o volume dos efeitos sonoros é o método mais pobre, batido e tolo de levar o espectador aos sustos). Para piorar, a trilha sonora investe em um tema, composto especificamente para a sereia, que é repetido e martelado na cabeça do público a ponto de soar irritante – e chega um momento em que aquela breve melodia, produzida através de cânticos suaves, se torna genuinamente insuportável.

Transformando-se em um tédio absoluto (este é mais um exemplo de filme de terror que provoca bocejos em vez de medo, tensão e/ou sustos), “A Sereia: Lago dos Mortos” ainda se encerra de maneira hilária, com uma imagem inadvertidamente cafona e com uma música pop que, tocada no decorrer dos créditos, não tem absolutamente nada a ver com o que foi visto nos 90 minutos anteriores.

Aliás, a sereia bem que poderia utilizar esse filme como uma forma de aterrorizar suas presas. Qualquer um que chegue ao final deste desastre sem se sentir mal é, de fato, um sobrevivente.

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