A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly

Kurzel busca redenção

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

A maneira como “A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly” desenvolve a factualidade da narrativa que irá apresentar representa uma interessante condução por assumir o caráter ficcional acima dos fatos. Compreendendo que nada naquela história é real, o diretor Justin Kurzel inicia uma odisseia de loucuras propositais para construir Ned Kelly (George MacKay). O caráter volátil da personagem, que normalmente explode em violência, é o fio condutor da trama, que irá utilizar toda essa insanidade espontânea (mas pouco previsível) para seduzir o espectador no jogo de câmera e luz. Kurzel altera a realidade física do espaço, realocando o cenário com sua forma claustrofóbica e escura. Esse enclausuramento reflete grande parte dos sentimentos conflituosos de Ned. Dessa forma, o diretor nos propõe um salto na psique do protagonista.

O diretor gosta de trabalhar com uma direção de fotografia que destaque os contrastes e intensifique a atmosfera. Em “Macbeth”, Arkapal criava uma erudição da imagem ao passo que era rígido em sua decupagem, assim como desfigurava a proposta crível da peça. Aqui, o cineasta conta com o trabalho de Ari Wegner (Lady Macbeth) para trabalhar tais nuances. Nada muito memorável, apesar do trabalho eficiente e determinadas composições belíssimas, poucos quadros intensificam a verve que o longa busca passar. Com destaque para o primeiro plano onde vemos Ned Kelly adulto, o filme não atrai facilmente o espectador com o lirismo fragmentado de um texto pouco organizado.

A condição textual de “A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly”, junto com a montagem é o maior agravante aqui, pois Kurzel busca uma construção lenta e gradual, para alcançar um clímax ensandecido, mas tudo parece girar com uma lentidão imagética contra um ritmo que tenta acelerar demais o drama. Assim, é fácil perder o foco durante a projeção, já que a condução é realizada de maneira apressada. Além disso, as soluções que o roteiro encontra para dar continuidade à crescente loucura, são estapafúrdias, por vezes divertidas, mas demonstram a fragilidade dessa compreensão geral de como realizar essa escalada.

Não à toa, ao chegarmos no momento onde a forma assume essa inquietação geral, o espectador estranha a linguagem, porém não embarca na mesma, pois não há progresso gradual, nem uma quebra tão drástica que convença o público desse processo. O terceiro ato se configura de maneira tão irregular que quebra completamente qualquer imersão que houve anteriormente. Por mais que esteticamente seja interessante e, no mínimo, curioso a cena do tiroteio na casa, já que é impossível discernir as figuras que disparam, assim como seus uniformes.

O conflito político que se instaura diante de alguns personagens irlandeses x ingleses etc, são um pano de fundo para uma geografia indefinida e isso gera uma condição de espaço que intensifica a relação do protagonista com a insanidade. Trabalhando em perspectiva de preparar um terreno místico para o longa, Kurzel mistura diversos elementos concretos com um lirismo nórdico e cenas vertiginosas, em prol de uma inquietação da estóica mise en scène. Tais momentos não sou originais, mas conseguem dar um tom diferente à trajetória que iremos acompanhar ao longo da sessão.

O elenco conta com Charlie Hunnam, George McKay, Russell Crowe, Nicholas Hout e Thomasin McKenzie, mas com exceção de Mckay, ninguém se destaca, já que a grande maioria dos personagens são absolutamente unilaterais. Hout até busca uma dimensão diferente para seus momentos em tela, mas o texto não permite tantas camadas quanto ele gostaria. Já Mckay, é eficiente em seu trabalho, pois não se torna em expositivo nos olhares, deixando sempre um vácuo de violência por onde mira. Esse mistério nas atitudes de Ned servem como âncora para Kurzel e adiciona à obra uma irrealidade constante do próprio tempo e espaço.

“A Verdadeira História da Gangue de Ned Kelly” é um projeto que não acrescenta à filmografia de 2019, mas dá novos ares à carreira de Justin Kurzel após o fracasso absoluto de “Assassin’s Creed”. Ainda que não seja marcante em nenhum momento, o filme consegue entreter e trabalhar a violência fora do fetiche da indústria.

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