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A Musa de Bonnard

O amor, o egoísmo e a tragédia

Por Letícia Negreiros

Festival de Cannes 2023

A Musa de Bonnard

O egoísmo é, em mais de um nível, uma instância do amor. Este é o retrato pintado por Martin Provost em “A Musa de Bonnard”. Marthe de Méligny ama Pierre Bonnard e ele a ama de volta, mas ama muito mais sua arte. Bonnard constrói seu amor por Marthe através de suas telas. Ela passa a existir para dar sentido às obras. Ao torná-la sua musa, torna-a refém da volatilidade que espelha ao pintar. Para Provost, a segunda instância do amor é a tragédia. 

O longa se mostra tal qual uma pintura impressionista: os rápidos retalhos do relacionamento dos Bonnard são como pinceladas apressadas, ansiosas para formar uma imagem antes de perder o efeito da luz. O todo do casal é articulado por momentos chave de sua história. Não há terceiros, interlúdios ou distrações. Existe uma urgência em capturar o máximo de Pierre e Marthe possível. Do mesmo modo que um impressionista aspirava velocidade para capturar o mundo tal qual o via naquele exato instante, “A Musa de Bonnard” se utiliza de cada segundo para decifrar o que Marthe realmente era para Pierre. 

Provost aprofunda sua busca por uma resposta também através de mecanismos impressionistas. As cores – que em diversos momentos parecem ter saído diretamente das obras de Bonnard – ditam o tom e o sentimento de Marthe, da forma como Pierre a vê. Quando a via como sua musa, a enxergava constantemente dentro de suas pinturas: as luzes eram etéreas, pinceladas por amarelos, verdes e lilases. Ela era esvoaçante, leve, alegre. Distante da posição de musa, Marthe era colocada em um local mais sombrio e melancólico, era uma versão menos iluminada e mais enrijecida de si mesma – quase como uma pintura esquecida no depósito de uma galeria. Não há, porém, a substituição da origem dessas cores, desse calor. 

“A Musa de Bonnard” deixa Marthe muito bem estabelecida como provedora e motivo da visão de mundo de Pierre. Reneé – a outra mulher na vida dele – não reivindica essas cores e luzes para si em momento algum. Só é vista sob estas lentes na presença de Marthe. Nem mesmo Pierre é capaz de proporcionar essa presença artística a si próprio. O longa começa já na presença de Marthe pois, para Pierre, só há arte na presença de Marthe.  

É uma percepção involuntária. Ele mesmo só se dá conta do peso da presença dela quase tarde demais. Essa necessidade torna seu amor egocêntrico, mesmo que por acidente. Pierre precisa dela para ser artista, então a torna dependente dele para existir. Não necessariamente a nível financeiro – isso era a sociedade da época -, mas a nível sentimental, existencial. Marthe se torna uma extensão de Pierre, vive para que o artista possa existir. Quando o perde, perde seu sentido de ser. Tudo o que lhe resta é sua tragédia, que também pertence a ele. Marthe se torna uma obra de Pierre, tanto quanto qualquer uma das pinturas para as quais posou. 

“A Musa de Bonnard” traz essas nuances e dificuldades do relacionamento deles em lindas imagens, mas se limita a isso. É um belo filme, no sentido de mostrar quadros agradáveis aos olhos. Realmente, os longos planos na casa em meio a natureza só não se confundem com um quadro de Bonnard pelo meio como a imagem é entregue, mas é apenas isso, belo. 

Diferentemente da ideologia e da obra impressionista – e pós-impressionista, grupo no qual realmente se pode colocar Bonnard – o longa não transmite tanto sentimento quanto acredita. A carga dramática da narrativa se perde em meio ao apelo estético, que se torna completamente sem propósito quando esvaziado de significado. O paralelo da velocidade das pinceladas e o desenrolar acelerado dos fatos fica obsoleto rápido demais. Os momentos retratados entre Marthe e Pierre são relevantes apenas por serem entre eles, parecendo vazios e insuficientes para elaborar o sentimento entre eles. Nem mesmo a obsessão estabelecida entre artista e musa é suficiente para preenchê-los. 

“A Musa de Bonnard” alcança objetivos distintos dentro do que se propõe. Enquanto filme sobre um pintor, é uma excelente homenagem à visão deste, capturando a essência de sua obra e adaptando-a a um novo meio. Enquanto filme, para na beleza estética, ainda muito limitada ao elemento fotográfico do longa. A vontade é muito presente, mas o longa não se vê como muito além disso. 

2 Nota do Crítico 5 1

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