A Meia Voz

O "perene"

Por Vitor Velloso

Durante o Cine Ceará 2020

“A Meia Voz” de Heidi Hassan e Patricia Pérez Fernández é o “Democracia em Vertigem” do Cine Ceará deste ano. É o discurso da burguesia ocidental para o mundo, a universalização das ideologias formais cinematográficas em consonância com a consciência burguesa. O grande norte do projeto é essa idealização constante do universal com o privado, dos pilares dessa relação entre as duas personagens como pontes possíveis para seu processo de internacionalização cinematográfica. A tônica é fazer um filme que seja pessoal, mas aceito em festivais. Falar de Cuba e paixões, através da forma burguesa e “aceita” pela burguesia “internacionalista”.

Um verdadeiro tratado de fala mansa, um barato que encerra o Cine Ceará com a ciranda esteticista. O ponto de interseção entre a burguesia e a ideologia da cinematografia aqui está necessariamente na forma, não em sua estrutura “narrativa”. E neste ponto “A Meia Voz” se alinha com as arestas mais proeminentes da alta burguesia intelectual, pois posa como um “monumento” formal, a partir da progressão consensual da coerção da mais-valia estética nos eixos culturais. O reflexo dessa homologação, é a padronização dessa linguagem para uma relação tão sincera entre as duas personagens-autoras.

O cinema deveria criar uma nova categoria para os ensaios cinematográficos e autobiográficos, o cinema de fala-mansa. Os sussurros buscam aumentar algum de complexidade pro balaio todo, mas só provoca sono e parece tentar se esconder da exposição. Daí quando se critica o posicionamento homogêneo das obras e das posturas diante do próprio material, têm-se a imagem do radicalismo, porém só prova que o clube do Parque Lage sussurra porque tem vergonha. O cinema-latino americano vêm se curvando para essa prosa na montagem como quem mira os “grandes” festivais europeus, a relação é tacanha, falida e de eterna dependência.

A oralidade se tornou “nostalgia” distante, a tradição agora é “danse macabre” no templo dos festivais. O encerramento apenas denota que a falência formal é o enriquecimento da burguesia, de todos os tipos, da primeiríssima ordem. É um verdadeiro escárnio diante dos avanços, brevíssimos, que vislumbramos na política ou no debate da mesma. E se o crédito do problema é apontado à produção, deve-se compreender que a oferta sempre existiu, mas a demanda se tornou uma retroalimentação de quinta categoria da burguesia nos festivais de cinema. Quando o impacto final de uma projeção do festival perpassa pelos cenários europeus e a formalização da forma do velho continente, vemos que o buraco tá mais fundo que se imaginava.

“A Meia Voz” cumpre palavra, ou meia, em seu título. Parece feito nos retalhos dessa reverência à linguagem do ensaio francês e traços latinos à serem enaltecidos. A produção incessante e os devaneios pelas paisagens de “Agnes Varda” é a pátria grande indo pras cucuias. E se não bastasse a vestimenta, o filme ainda profere a filosofia etílica de vinícola, das mudanças de perspectiva e de como o espaço nos joga à cantos inimagináveis. A curiosidade é o materialismo a ser defendido em abandono explícito, para que possamos refletir dos tormentos já expostos nas imagens e sobreposições duvidosas. Aliás, a fala mansa tá no cangote o tempo inteiro.

Se num primeiro momento o salivador de Brahma enxerga honestidade na construção, não tarda muito para enxergar com desconfiança as intenções externas à obra. Como dito, é uma insegurança que leva a reforçar o tom intimista das relações, um barato à lá Petra Costa. Que em algum momento até funciona, mas se torna muleta formal. O pior fetiche é se enxergar em caráter mítico diante da realidade, colocar-se no pódio para conduzir com a maestria de um francês a história de transas imperialistas, estruturais e políticas. É chegar na encruzilhada e entregar a prata ao algoz.

Arte contemporânea e a sintonia cinematográfica em prol da alta burguesia, “A Meia Voz” é o decálogo da internacionalização cinematográfica no ensaio da fala-mansa. E os mandamentos do troncho na esquina vai se perdendo. A certeza de que o louco nu com cartaz branco berrava a cegueira alheia se torna cada vez mais concreta. Segue o baile. Citando Quintana é o cúmulo.

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