A Jangada de Welles

O retrato político de uma morte

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

A morte de Jacaré é um tema que muitos ignoram ao relembrar quem foi Orson Welles. Muito se fala da forma fílmica, da pessoa, do mito, até do filme inacabado que veio realizar no Brasil, mas pouco se fala da morte do jangadeiro Manuel Jacaré durante as filmagens. 

A Jangada de Welles” de Petrus Cariry e Firmino Holanda, constroem aqui um documentário que evoca a memória do jangadeiro, debatendo toda a questão da ditadura do Estado Novo e os direitos trabalhistas de uma classe ignorado pelo Estado. O documentário é bastante assertivo na maneira que constrói sua visão acerca dos acontecimentos pré-acidente do jangadeiro, demonstrando toda a comoção nacional que envolveu a viagem inconcebível do Ceará para o Rio de Janeiro, em jangadas, destes homens que buscavam um diálogo mais próximo a Vargas, para que houvesse algum tipo de direito trabalhista para eles. 

Dentro de sua estrutura, o filme busca costurar todo o contexto político em paralelo à vinda de Orson Welles para o Brasil, a fim de realizar um projeto sob encomenda, assim a montagem cria um enorme esforço em não dificultar essa divisão. Por mais que esclareça suas escolhas e caminhos, acaba impondo um ritmo burocrático à obra, que por vezes torna-se tediosa. Ainda que seja difícil compreender um viés diferente para o longa, tal oscilação afeta drasticamente a experiência que o expectador terá. 

A quantidade de material de arquivos é estonteante, todos utilizados com eficácia no corpo do projeto, que parece entender aquilo que projeto como uma história a ser contada e não descoberta. Desta maneira, não torna-se ambíguo em seu julgamento moral e ético acerca da morte do jangadeiro durante as filmagens do cineasta norte-americano. O filme não chega a culpar o diretor pelo incidente, mas jamais retira qualquer dose de responsabilidade do mesmo, indo atrás de entrevistas de pessoas que estavam presentes no local e revelam o temor dos trabalhadores com o tempo no momento da filmagem. 

E essa discussão acerca do acontecimento de um ponto de vista mais político que uma mera conversa que debate a culpabilidade de um diretor, atravessa um ponto crucial da obra de Petrus Cariry e Firmino Holanda, uma questão cultural entre EUA e Brasil, que atinge diretamente a política brasileira naquele momento e acaba mostrando o reflexo fálico que se vê nos dias atuais. A entrega completa de uma questão cultural e social para os padrões norte-americanos é apontada com veemência pelos diretores, que não poupam os julgamentos do colonialismo e da política de abertura à colonização brasileira. 

E se formalmente o filme não tem muito para onde se expandir, já que utiliza quase que o tempo inteiro de material de arquivo, a maneira como ele se organiza para que a estrutura possua um discurso próprio e que contribua para a história, acaba demonstrando a personalidade de ambos os diretores, além da autoria, que compreende os fatos através de como eles são de fato, mas os monta com a destreza e o olhar de quem constrói uma história. 

Sendo um dos maiores trunfos do projeto, sem dúvida, pois ainda que ele fale da realidade e de um momento histórico factual, demonstra domínio sobre aquele material e o articula para que a verdade seja passada, mas a interpretação seja aberta até onde os fatos não permitem, logo, é assertivo onde as luzes da história atingem a narrativa. A atitude revela o profundo respeito por todas as figuras ali envolvidas, pela história e pela vida de um jangadeiro que morreu durante as filmagens de um filme financiado por Hollywood. 

A apuração dos fatos e os culpados pelo acontecimento são de leitura individual, ainda que “A Jangada de Welles” compreenda uma verve que reverencie a culpabilidade de Orson Welles pelo acontecido. Algo que fica relativamente fácil de concordar com o material que é apresentado no documentário, que aliado dos depoimentos dos que estavam presentes na diária do falecimento de Jacaré, filhos, sobrinhos e netos, corroboram para uma narrativa que denuncia o descuidado da produção com a vida da vítima. 

“A Jangada de Welles” é um filme que marcou certa presença durante a 43ª Mostra de Cinema de São Paulo, mas que não foi exibido durante o Festival do Rio, pena, teria elevado o nível da competição.

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