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A Febre de Petrov

Todos nós viemos de “O Capote”

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2021

A Febre de Petrov

A Febre de Petrov”, o longa que Kirill Serebrennikov concluiu em 2021, é um mergulho na alma russa. A assertiva é um clichê, sem dúvida: mas, como diria o filósofo, fazer o quê? É um clichê recorrente, que admiradores e críticos apressados usam para referir-se às especificidades culturais e psíquicas dessa imensa nação, que traz em sua geografia a união do Ocidente com o Oriente – e que ninguém, como lembrava Vaclav Havel, nem os próprios russos, sabe onde começa e onde termina. Nesse mundo conturbado em que vivemos, uma derivação perversa dessa alma trouxe mais um complicador – a guerra da Ucrânia, evento totalmente absurdo, anacrônico. Guerras são sempre absurdas, ok, mas como entender que as loucuras de Putin são apoiadas, em vários países inclusive no Brasil, pela extrema direita e extrema esquerda, ao mesmo tempo? Essa, nem Freud explica. Uma das consequências disso tudo é o cancelamento, em diversos níveis, que alguns se acham no direito de fazer a respeito da cultura russa: “A Esposa de Tchaikovsky”, que Serebrennikov realizou em seguida, foi um desses alvos.

Todos nós viemos de “O Capote” – a frase é de Dostoievski, “O Capote” é o famoso texto de Nikolai Gógol (o qual, a propósito, nasceu na Ucrânia). A literatura moderna russa surgiu aí, nessa juntura do trágico e do cômico, entre o fantástico e o real, com personagens que perdem tudo – o nariz, a razão, o sentido, o juízo, a identidade – e que parecem flertar, ao mesmo tempo, com Deus e o diabo. Pois é Gógol a matriz literária de “A Febre de Petrov”, do filme e do livro no qual é inspirado: escrito por Alexei Salnikov e publicado em 2018, ganhou vários prêmios de prestígio no seu país de origem. Petrov é um escritor de histórias em quadrinhos e eventual mecânico, que padece de gripe crônica – a narrativa se constrói com todos detalhes possíveis desse estado gripal, que parece contaminar a atmosfera. Afinal, o que são as gripes? Gripe é uma doença infecciosa causada por diversos vírus ARN, os mais propensos a sofrer mutações genéticas. No trajeto alucinatório que percorremos com Petrov, dissipa-se a causalidade a que estamos habituados para estabelecer nexos de compreensão do enredo: ou melhor, transmuta-se, como uma mutação genética que afeta a todos e a todas. A mulher de Petrov, por exemplo, adquire superpoderes; o amigo escritor pede sua assistência para suicidar-se; o filho somatiza o divórcio dos pais com… mais febre; e o morto levanta-se do caixão e caminha pela rua, sempre gelada e úmida.

Este é um filme, portanto, que viaja na subjetividade do seu protagonista, convidando o espectador a desestabilizar o chão sob seus pés e por em xeque seu aparato de inserção intelectual. A história vaza por todos os lados à medida em que avança, rachaduras que extravasam instantes divertidos e momentos angustiantes – com ou sem relação de causa e efeito. Muita câmera na mão, travellings com ou sem steadycam que representam imersões acidentais dos figurantes nessa odisseia microscópica na mente febril de Petrov. Travellings que podem começar em determinado dia e terminar uma semana depois, sem corte aparente. Você parece canceroso, diz uma passageira no ônibus lotado que Petrov embarca, na Noite de Ano Novo. É só uma gripe, rebate nosso herói. Logo em seguida, o ônibus para bruscamente, Petrov é retirado do veículo, recebe um rifle e é obrigado a participar de um pelotão de fuzilamento improvisado. Homens e mulheres bem vestidos, ternos e casacos de pele, descem de uma van, perfilam-se contra uma parede e rapidamente são mortos a tiros. No ônibus, os passageiros acompanham a cena por trás do vidro embaçado e sujo.

Tudo isso acontece em menos de cinco minutos: “A Febre de Petrov” estimula na largada uma premência de tempo, um imediatismo que nunca se completa. Só o inverno que assombra a cidade de Ecaterimburgo, nos Urais a caminho da Sibéria, afigura-se permanente: é onde nasceu e vive Alexei Salnikov, um importante centro industrial (e cultural) desde o tempo dos czares, reforçado durante a União Soviética, e onde foi rodada a fita. Serebrennikov, por seu turno, entrou em rota de colisão com as autoridades por programar documentário sobre o grupo anarco-musical Pussy Riot, em 2013, logo depois de tomar posse como diretor do Centro Cultural Gógol. Em fevereiro de 2021, recebeu aviso de demissão do Centro, por parte do Departamento de Cultura de Moscou. Passou anos confinado em prisão domiciliar, mas conseguiu sair do país e hoje reside em Berlim. Filho de pai russo judeu e mãe ucraniana, para ele a Rússia está se autodestruindo com sua guerra na Ucrânia: e o apoio doméstico à invasão foi resultado de muitos anos de propaganda terrível.

3 Nota do Crítico 5 1

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