A Boa Esposa

Os diálogos entre as gerações?

Por Vitor Velloso

“A Boa Esposa” de Martin Provost é um filme que os fãs da Binoche vão ter o que reclamar. Uma comédia, com musical e fantasias eloquentes em torno da ciranda revolucionária que a França segue respirando. Não que as reivindicações estejam equivocadas, mas a forma dessa “revolução” é a derrocada dos próprios movimentos durante o século XX. Movimentos estes compreendidos como qualquer forma de “digressão” da ordem conservadora. 

De todo jeito, o longa vai atrás de uma espécie de paródia dos “bons modos conservadores” e da imagem da “mulher recatada” para criar esse movimento de ruptura. Mas o processo é de uma exposição que força um humor físico, tentando encontrar uma dinâmica mimética interna, reprisando alguns projetos que acredita na força do didatismo para essa movimentação. O problema é que nada aqui tem graça, pelo contrário, é uma resolução chanchadesca um bocado tosca que faz todos no filme parecerem fantoches de uma sketch televisiva. Além do mais, os reforços que o projeto tenta reforçar são excessivamente superficiais para que se crie uma compreensão dessa exposição generalizada. Caso fosse factualmente panfletário em uma escala mais crítica da própria situação, iria funcionar minimamente melhor. 

A Binoche possui uma quantidade razoável de fãs no Brasil e está claro que muitas escolhas da atriz soam… duvidosas e “A Boa Esposa” é mais uma dessas empreitadas tristes de se acompanhar. Aqui, ela faz um estereótipo como diversos personagens da obra, para tentar explicitar que essa revolução viria de um conjunto de fatores e mudanças institucionais (a figura da freira é clara neste sentido). Mas essa construção absurda, que transpira francês e tenta centralizar França em cada um dos seus quadros, é de uma chatice tremenda. A costura inicial que vai juntando fragmentos de imagens, seccionando funções e “pilares” de como ser uma boa esposa até é funcional para um ponto de partida, mas a tentativa de humor em cada linha de diálogo, com uma proposta física, que compromete muito que esse discurso das normas seja desenvolvido à um diagnóstico, ou revolução de fato. A própria história francesa vive dessa glória de 68, tendo o “Viva a Revolução” seu eterno lema. Tão reformista como de costume, o país mergulhou novamente em seu conservadorismo e homenageia o momento com um homem na direção. 

Essa direção é padronizada, programática, segue de perto todas as tendências da indústria e formaliza “zoom cômicos”, travelling para revelar esse movimento, close que deslocam um personagem para torná-lo “engraçado” (em geral piadas com fragilidades) e uma guerra de travesseiros que não pode faltar em nenhum circunstância. Ah, e as citações em tom mais sério, onde encarar a câmera é revolucionário. É uma receita de bolo que Provost realiza, segundo os mandamentos que o retorno financeiro lhe dará. O cinema comercial francês está em uma decadência profunda e “A Boa Esposa” é mais um barato que chega ao brasileiro com alguma estrela estampada no cartaz para garantir algumas vendas. As transições forçadas apostam na comicidade da ruptura dessa imagem, alcança no máximo um espasmo da indústria. 

No mesmo cenário de Week-End à Francesa, a ciranda retorna em cantoria, libertando-se contra as amarras da sociedade. Um manifesto de Laranjeiras que se une à burguesia para clamar pela liberdade individual, sem uma proposição que de fato esteja atrelada à mudanças na sociedade. Nesse sentido, o longa até que segue de perto parte dos discursos feitos em 68, onde vimos no que deu. De toda forma, os nomes citados ao fim, expõe o óbvio, uma centralização catártica da mulher européia. Esse foco no velho continente é algo comum, onde nenhuma figura fora dos “grandes eixos históricos” surge com força, em verdade a ordem do discurso é categoricamente conservadora ao acreditar que o “cânone” se encontra nos “valores” de tais países. 

Um filme tão francês que nos lembra da bela história colonialista que segue apagando os “países periféricos”, mas poxa… viva a revolução. Provost na direção, arquétipos, França, instituições católicas na direção, musical no meio do rua e citações européias… O prato cheio do reformismo zonasulesco e isso independe de rotular conservador ou progressista, tem mais haver com a própria forma. 

Trailer

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