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Zona de Interesse

Uma sádica e crítica tentativa de humanizar o horror

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2023

Zona de Interesse

Alguns filmes “batem” rápido demais, causando um impacto psicológico tão intenso, sensitivo e genuíno em nossas emoções, que somos obrigados, involuntariamente, a aceitar o que recebemos. Esses filmes parecem não ter trabalho algum em construir nos espectadores sensações dilacerantes que anestesiam nossos olhares com a plasticidade estética das imagens, que cozinham nossos sentimentos com uma elegante ambiência, até que o “tiro de misericórdia” venha direto em nossos corações. Um deles é “Zona de Interesse”, do realizador britânico Jonathan Glazer (de “Sob a Pele”). Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2023, este longa-metragem é, acima de tudo, uma experiência metafísica e extrassensorial, que busca incomodar e nos tirar de nossas zonas de conforto, conflitando questões éticas e morais, ainda delicadas dos tabus sociais. Ao apresentar uma narrativa de imersão intimista e pessoal de uma família, nós nos transformamos em testemunhas submissas que observam o pragmático sadismo e a naturalizada crueldade de “existências normais”. 

Inspirado no livro homônimo do romancista britânico Martin Amis (que assume aqui a função de roteirista junto com o diretor), que escreveu em 2014, “Zona de Interesse” é aquele típico filme “soco no estômago”, que nos faz brigar internamente para conservar nossos valores ideológicos, visto que aqui o foco é humanizar os “funcionários”, porque eles estão apenas cumprindo ordens em nome do trabalho, com o objetivo de viver uma vida melhor, entre gargalhadas e diversões na piscina. Sim, seriam pessoas normais, mas o conflito mora no fato de que servem aos partido nazista. Aos poucos, literalmente, nossa cabeça dá um nó, especialmente quando percebemos o que realmente é a fumaça. Todo esse tom gradual da contemplação, até se juntar todas as peças, acaba por referenciar a estrutura condutora de Michael Haneke e seu “A Fita Branca”. “Zona de Interesse” é um filme que usa o tempo a seu favor, talvez pela consequência gerada no público em o congelar e pausar seus pensamentos. O título, por exemplo, demora na tela. Depois o fade. Logo em seguido uma atmosfera new age, bucólica, sensorial, cósmico e etérea. Uma família, “aparentemente inocente”, como outra qualquer, é mostrada ao longe tomando sol à beira de um rio. É verão. 

É assim que “Zona de Interesse” se desenvolve. Pela captação do externo. Pela tradução de um realismo coloquial. Há uma importação do tempo e reconstituída num presente de propósito atemporal. É como se o filme evocasse um túnel do passado (talvez pelo portal na mata) a uma comunidade do interior, à cavalo e com militares (oficiais) ao fundo. Todos ali seguem as regras de tudo o que precisa ser feito. Não querem (e podem mais) escolher outro caminho. Já até se acostumaram com chaminé, de vista imponente e gigante de dentro da casa. “Zona de Interesse” é um exercício narrativo. De os transformar em máquinas com suas formalidades em suas rotinas, suas portas trancadas, suas “neves cinzentas”, suas camas separadas (apenas para procriação) e o porco (uma afronta?). Histórias são contadas a crianças. Nossa pausa de novo. Será que esses pequenos alimentarão a “filosofia de limpeza da raça humana”? É, pois é. Lembra quando disse que o filme tenta humanizá-los? Então, o longa-metragem faz de tudo para que tenhamos empatia, por exemplo, no momento em que o marido recebe uma promoção do trabalho. A esposa (vivida de forma irretocável e “possuída” pela atriz Sandra Hüller – que aqui em Cannes atua em outro filme da competição “Anatomia de uma Queda”) fica feliz e ri. Mas quando algo dá errado e parece desmoronar (como a mudança de endereço – transferidos do “paraíso boa vida”), ela surta e usa todas as suas fichas para convencer. Sim, ela está cuidando de sua família. Está errada? Não está? Cuidado! Jonathan não faça isso! Não seja maldoso!

Entrar em “Zona de Interesse” é estar vulnerável a se perder. Há uma força, um campo gravitacional que o enfeitiça. Que o aprisiona. Que o coloca para baixo. Uma iminência de um mal se apossando. O que está errado nesta zona de interesse em aceitar a oportunidade da guerra? Será que se comportam assim para sobreviverem? Ou já internalizaram as ideias e atitudes nazistas? É, de novo, “Zona de Interesse” gera uma angústia existencial, uma impotência conceitual e um sentimento de desistência. Esses são os impactos psicológicos que o filme causa, quase uma vibração do insconsciente. Definitivamente, nós não saímos ilesos, especialmente por seu final, que atravessa o tempo, espaço, a memória, o próprio esquecimento e inclusive o título desta obra. 

Em Auschwitz, A Zona de Interesse era o local em que os judeus recém-chegados passavam pela triagem, processo que determinava se seriam destinados aos trabalhos forçados ou às câmaras de gás. No livro de Martin Amis, “Ela se ajustava ao ideal nacional de feminilidade jovem: imperturbável, ar campestre, feita para a procriação e o trabalho pesado.”, sobre a ideia do amor, de ser homem e de ter uma mulher. “Zona de Interesse” não é sobre o caso de amor entre um oficial nazista e a esposa de um comandante do campo de concentração, mas sobre o horror espreitado, pronto a consumir e destruir. Pela psicanálise, somente cérebros psicopatas conseguem viver muito tempo nestas condições. Outros adquirem a psicose. Aqui, até agora não se chegou a um diagnóstico do porquê de todo esse “amor” pelo genocídio. 

5 Nota do Crítico 5 1

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