Zimba

De Varsóvia a Rodrigues

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“Zimba” de Joel Pizzini chega ao É Tudo Verdade como um importante documento de um dos artistas mais marcantes do teatro brasileiro no século XX. Ziembinski é uma figura que é única na cultura nacional, abrange uma ampla camada de nosso momento histórico e é uma espécie de síntese artística da consciência estética de um período. 

O documentário busca contar sua trajetória de forma totalizante, desde seus tempos na Varsóvia, sua vinda ao Brasil e os desdobramentos de suas peças para uma conjuntura geral. É didático em como estrutura suas exposições para uma conveniência na articulação, formalizando uma unidade que consegue cadenciar sua importância e os dilemas pessoais em um caráter criativo e pessoal. Busca em entrevistas de amigos do artista, como era trabalhar com Ziembinski e a intimidade de um artista vulcânico e inquieto. Acaba pecando em conseguir articular isso de uma maneira menos programática, o que influencia diretamente no ritmo da obra. Porém, algumas construções são particularmente interessantes e merecem destaque. A busca dos materiais de arquivo, em especial as obras polonesas, são bem interessantes e servem de base para alguns dos depoimentos que vão surgindo com a progressão. 

Contudo, esse esquema se mostra pouco sólido em determinados recortes que “Zimba” busca, pois fortalece algumas representações mais “poéticas” onde performances ocorrem, perseguindo algumas proposições anteriores do protagonista, como em vestido de noiva. Esse entrelace temporal, pouco acrescenta para o filme, deixando-o lento, pouco criativo e tornando o diálogo mais expositivo que funcional. A base da dialética que articula uma relação da cultura contemporânea com o legado do artista, se encontra em momentos isolados e passagens brevemente bregas. Como uma exposição literal, onde a projeção dá conta de estampar alguns dos arquivos em tecidos que os atores encontram em suas memórias. Desta forma, parte das entrevistas se tornam introduções para esse jogo cenográfico que o longa insiste veementemente, a tentativa de uma retomada de mise-en-scène soa uma nostalgia pouco funcional para a homenagem que pretende fazer. Não à toa, as falas mais convincentes do impacto de sua obra estão em relatos particulares, onde Ziembinski discorre seu processo artístico e categoriza algumas de suas criações de acordo com a montagem que realizou em momentos históricos específicos. 

Essa falta de um diagnóstico totalizante para uma conjuntura que se molda através de parte das suas criações, acaba deixando de lado algumas relações políticas que se encontram suspensas no filme. A ditadura é uma temática que apenas cruza algumas falas, mas não se materializa no processo. E uma relação que o longa reconhece como importante, não recebe atenção à altura durante a projeção. Nelson Rodrigues é um personagem citado, e enquadrado, diversas vezes, mas Cacilda é um momento breve, com um material de arquivo frágil que parece ilustrar de forma mimética algumas falas do protagonista. “Zimba” deixa constantemente a sensação de um filme que se interessa muito pelo artista, sem conseguir organizar uma estrutura que dê conta de ser projetado sem que soe uma mera eulogia. 

Contudo, algumas descrições feitas conseguem animar o espectador a pesquisar sobre apresentações e peças ali citadas. É a magia limítrofe do teatro que dá asas à sua história. Estar presente na apresentação é a única maneira de termos uma noção da força de uma obra. Um “limite” que transforma o teatro em algo de carne, contato, mas define sua experiência em si. E isso, Zieminski sabia fazer. 

O material de arquivo é vasto e muito rico, os depoimentos somam muito e as obras polonesas nos dão o tom de sua evolução e mudança. Mas “Zimba” parece perdido em meio a tantas informações e consciências multifacetadas, entre processos criativos e uma infinidade de vidas por trás de apenas uma figura. Parece sofrer de uma falta de desapego com algumas de suas capturas, transformando alguns objetos de estudos e causos em meras relações temporais, realizadas para traçar um imaginário que se fragiliza em parte da projeção, mas o recorte em primeira pessoa mantém o barato sob controle.

Trailer

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