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Yãmĩhex: As Mulheres-Espírito

Atravessamentos dos Corpos

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Com a presença sonora de um Brasil que não se esqueceu, “Yãmĩhex: As mulheres-espírito” de Sueli Maxakali e Isael Maxakali foi exibido na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em competição pela Mostra Olhos Livres e relembra a certo olhar cadenciado para uma questão tão subjetiva quanto a violentação da nossa cultura através de uma curadoria que geralmente não abre espaço para as produções nativas. Não é o caso dos responsáveis pelo festival que ocorre na histórica cidade mineira que, a cada ano, inclui produções indígenas em sua programação, desta vez na principal competitiva.

O documentário é um olhar muito íntimo de uma culturalidade tão originária e rica das raízes nacionais e não deve ser ignorado dentro da competição. Ao contrário, é – sem dúvida – uma das obras mais potentes desta edição.

Ao assumir que não há a distinção daquele que filma com os personagens em tela, uma proximidade se faz com um vigor tão orgânico que se confunde nas texturas e nas formas que são projetadas na tela. Com a dança que cruza o ecrã, uma relação tão rítmica quanto espiritual, vemos o atravessar da sombra do cinegrafista. Essa relação de assumir o tempo inteiro que trata-se sim de uma filmagem que sente aqueles corpos com essa cautela de estar junto, mas nunca interferindo, transforma “Yãmĩhex: As mulheres-espírito” nessa potência que o fez vencer o prêmio Carlos Reichenbach, que o espectador circula entre essa experiência vívida e a observação passiva completa da obra.

Essa ambiguidade criada na complexidade dessa forma, constantemente se adaptando ao seu objeto e sua locação, transforma tudo nessa explosão. Explosão, esta, centralizadora mas nunca estoica – para que se compreenda a volatilidade de um cinema que assume a mutabilidade desse universo. Universo, este, que se despede ao passo que acolhe esse fluxo de espíritos que atravessa a aldeia. Essa ideia tão vertiginosa de uma circulação que não reconhece o fim dessa trajetória na tela concretiza tudo aquilo que o cinema brasileiro tem de melhor: um constante repúdio pela inércia.

Não à toa, a Mostra Aurora é tão diferente da Olhos Livres, posto que, aparentemente, existe uma predileção por cineastas que estão por vir, que buscam seu reconhecimento através de projetos que seguem padrões já laureados pela crítica. Formatados para que haja um primeiro impulso nessa noção blasè da significação do mercado. Talvez, por esta razão, podemos notar que grande parte dos maiores representantes do cinema nacional seguem os padrões sociais, formais e de discurso de um movimento que não se politiza ou não busca esse lugar da inquietação generalizada.

Yãmĩhex: As mulheres-espírito” não é inserido em um cenário cinematográfico como um filme político, ele o é por razões assombrosamente exteriores ao mesmo. Não à toa consegue erguer uma reação instantânea do público, pois faz parte de uma construção de linguagem que atinge o âmbito cultural com uma força que nega as barreiras constantemente construídas no Brasil. Atravessa tudo isto com uma lucidez e honestidade impressionantes. Faz por possuir a vivência na pele de cada giro, de cada canto, de cada batida. Um Brasil que ferve em História e necessita de vozes que sejam dissonantes dessa política de sufocamento cultural.

Sueli e Isael Maxakali ocupam a Mostra de Tiradentes para dizer que essa movimentação que está presente em suas vidas e seus filmes deve ser projetada a todo custo nas telas brasileiras. A obra em questão, como dito, vencedora da Mostra Olhos Livres, não deve ser um caso especial da nossa cinematografia, mas sim uma constante que reconhece na nacionalidade de uma cultura tão ampla, uma verve de remontar o frenesi do que significa ser da terra, vir da mesma e viver para que ela exista.

A beleza ritualística dos passos e dos movimentos de cada um daqueles corpos que tatua a historicidade desse S tão esquecido no nome do país que nos pariu em continência colonial, inspira a estética dos olhares sensíveis de uma tenda com 700 pessoas que se levantam para aplaudir o manifesto de estar sendo aquilo que se é. “Yãmĩhex: As mulheres-espírito” é uma daquelas obras que nos acompanham por dias e semanas após a exibição em mostra ou festival e que, ao final do ano, teremos orgulho em falar sobre nas rodas de conversa ao apontarmos nossos destaques.

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