Xamã Punk

Pós-carioca e um calçado

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2023

Xamã Punk

A Mostra Aurora possui um histórico recente controverso: entre filmes que terminavam sua projeção com metade do público abandonando a sala, ou obras interessantíssimas que eram debatidas por alguns dias durante a Mostra de Tiradentes. Esse recente retrospecto criou um certo estigma em torno da Aurora e basta uma conversa rápida com os espectadores para escutar comentários negativos sobre a mostra competitiva. 

Contudo, para cada vez que um filme desagradava o público, era possível escutar os argumentos, algum debate depois da sessão, cochichos, etc. “Xamã Punk” é um caso particularmente curioso, pois após a exibição era possível escutar as pessoas conversando sobre um evento que aconteceu na sala, mas não sobre o que viram no longa. 

Dirigido por João Maia Peixoto, o filme se passa aproximadamente 300 anos no futuro, nas ruínas da sociedade, com o cenário de um Rio de Janeiro “devastado”. Dois rapazes vagam por lugares desconhecidos e vão encontrando pessoas, se transformando e percebendo um mundo bastante distinto do que estão habituados. Dessa sinopse, pode-se notar algumas questões que aparecem na Aurora com alguma frequência: o gosto por um mundo devastado e uma aptidão pelos encontros, são dois exemplos destas similaridades. 

“Xamã Punk” procura uma série de experimentos para construir uma experiência neste universo devastado, a partir de uma representação das interações sociais baseada em uma certa estranheza no encontro, mas só consegue desenvolver algo funcional nesse sentido a partir do desenho sonoro. O som é capaz de nos dar uma dimensão do mundo ao redor, retratando o som da natureza e ruídos em geral, mesmo que de forma parcialmente limitada, diante de um cenário devastado. Além desse elemento, é particularmente difícil traçar a experiência de um filme que não possui exatamente uma proposição e se ela existe, não está na tela. 

São oitenta minutos de falas pouco compreensíveis, cenas onde a estranheza parece guiar os acontecimentos e um amontoado de situações que não nos contam muito além do que a sinopse explicita. Acompanhamos dois personagens, mas não se acompanha o filme. A câmera procura centralizar algum elemento de ação no espaço de representação da obra, porém enfrenta o problema de não haver nenhum movimento narrativo concreto. Assim, o espectador vê os personagens caminhando, trocando palavras, estranhando atitudes das pessoas, aprendendo com a criação de um personagem, capaz de acender uma luz a partir de fezes… Para um filme de experiências, exploração e encontros em um mundo desconhecido, “Xamã Punk” tem muita dificuldade de se movimentar. 

Há um vício de contínua reciclagem entre as cenas, onde a linguagem segue um mesmo padrão do início ao fim, a câmera na mão como quem procura um repouso para o enquadramento. Com um tom cinzento constante e poucas informações do que está acontecendo, as razões ou o próprio cotidiano, geralmente registrado como uma passagem natural de um personagem, mas muito falseado. É tudo como uma espécie de base epistemológica pós-alguma coisa, provavelmente importada, que procura ser uma analogia muito elaborada sobre algo que ninguém reconhece. Ou mais um desvio ideológico aburguesado de como o cinema pode servir de autoterapia, particularmente comum no cinema contemporâneo. 

Mas… um acontecimento.

Eis que estava assistindo ao longa-metragem “Xamã Punk” e um evento absolutamente interessante ocorreu na sessão. Os sons de um mundo devastado foram interrompidos por um ruído pesado, acelerado, como de uma pessoa correndo nos pisos ocos do Cine-Tenda. Então, avisto uma sombra, a todo vapor, mas não pude reconhecer de primeira, estava escuro, no cinema e no filme. Até que notei algo ainda mais incomum, uma mulher corria desesperadamente atrás da sombra, tentando pará-la, fazendo sons com a boca. A situação estava ironicamente chamando a atenção de todos que estavam presentes na sala, desviando o foco dos encontros apocalípticos pós-cariocas. Até que a sombra foi em direção à tela e pude distinguir, era um cachorro. O cachorro estava em disparada, atravessando a sala em uma velocidade recorde, com o calçado da mulher em sua boca. A mulher tentava a todo custo frear aquela enorme vontade do animal, mas falhava drasticamente, pois seu ímpeto de carregar o calçado era enorme. Então, após meia maratona percorrida, o cachorro se infiltra nas fileiras e some de minha visão. Apenas pude notar a mulher, tentando chamar o animal para pegar o sapato novamente. Ao fim desta saga nada apocalíptica, retomei minha concentração no filme e segui na tentativa de compreender os encontros e as interações sociais de 300 anos no futuro. Não sei o motivo, mas no futuro não há cachorros, nem calçados. Ps: O cachorro, a moça e o calçado, são reais. 

1 Nota do Crítico 5 1

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