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Writing with Fire

A realidade através dos celulares

Por Vitor Velloso

Writing with Fire

Inserido na vertente dos documentários jornalísticos, ou sobre tal temática, que denuncia a realidade dos países e a manufatura da opinião pública, através do monopólio da imprensa, “Writing with Fire”, dirigido por Sushmit Ghosh e Rintu Thomas, é uma obra que se concentra no trabalho de Meera Devi a frente do jornal Khabar Lahariya, integralmente composto por mulheres.

A grande ambição do Khabar Lahariya é jogar luz à verdade da negligência do Estado com as violências de gênero na região de Uttar Pradesh, estado ao norte da Índia, e explicitar as agressões dos representantes contra o próprio povo, por meio da permissividade, do sistema de castas, do fanatismo religioso e o avanço de ideias reacionárias na região. A obra se concentra em demonstrar o trabalho diário dessas mulheres, desde a coleta de informações até as dificuldades enfrentadas para adaptar-se às tecnologias, demonstrando a enorme dificuldade de um jornal independente com a divulgação de suas notícias. Neste sentido “Writing with Fire” é uma constatação de como os telefones celulares podem ser utilizados para denunciar as barbaridades do governo e das milícias locais, uma questão que vem sendo debatida há anos por uma série de jornalistas e cineastas, sendo parte da temática da CineBH 2021, que homenageou a Forensic Architecture e debateu a questão de como os smartphones podem ser utilizados como “armas”, tornando-se, também, alvos, para denúncias da realidade material. A partir dessa perspectiva, é importante também compreender como tais meios de comunicação e registro podem ser utilizados como forma de propaganda, promovendo narrativas falsas sobre a realidade objetiva.

Esse debate é pouco promovido pelo documentário de Sushmit Ghosh e Rintu Thomas, que passa superficialmente pelas questões midiáticas da situação, assegurando que a representação da intimidação possui um caráter mais direto e presencial. Está certo que o foco do filme não é construir essa problematização da circulação de informações, mas poderia dedicar mais minutos para mostrar como a construção do consenso, e seu caráter opressivo, é realizada no país e na região. Tal investida seria proveitosa na contextualização política desse cenário retratado pelo longa, que consegue apresentar as eleições e parte das falsas promessas através de entrevistas e materiais de arquivo com os discursos dos políticos. Um exemplo de um documentário que procura essa representação do debate e das refregas entre a realidade e a manufatura da opinião pública é o “Mil Cortes”, de Ramona S. Diaz, que contrapõe as diferentes formas de se construir a propaganda, além de mostrar a complexidade dos discursos em camadas distintas da sociedade.

Um dos maiores problemas de “Writing with Fire” não é apenas a multifacetação de suas discussões, mas a forma como o documentário se estrutura. Isso porque existe uma forte tendência de diluir o trabalho em torno de inserts e uma montagem que mimetiza parte de suas questões, ainda que isso forneça algumas informações importantes, como os comentários traduzidos nos vídeos publicados no YouTube. Porém, faz com que a projeção se torne exaustiva na medida que se aproxima do formato que as plataformas de streaming popularizaram nos últimos anos, ou seja, a virtualização da realidade material, normalmente com essa caracterização de uma rede que apenas se multiplica, acrescentado as informações. Essa proposta funciona parcialmente, já que consegue dinamizar as diferentes informações, mas acaba arrastando a projeção para um conflito de transformação de plataformas, inserindo na tela cada marco de “visualizações” conquistado pelo jornal. A propagação de um discurso, cada vez mais comum, de que todo cidadão é um possível jornalista e que os novos meios de comunicação propuseram uma nova questão democrática, pode ser bastante problemática quando não se analisa o contexto totalizante do cenário, especialmente as particularidades de cada caso.

“Writing with Fire” é importante para divulgar o trabalho das jornalistas e conscientizar das lutas regionais, mas sua linguagem tenta diluir tanto a discussão quanto um didatismo mimético e reprodutivo, que a obra se encerra em uma superficialidade pouco convidativa. A competição no Oscar 2022 é uma mera constatação desses fatos.

2 Nota do Crítico 5 1

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