Water Clock

Águas corporais em fluxo contínuo

Por Fabricio Duque

Festival Estação Virtual

Antes de tudo, precisamos dizer que os filmes experimentais, categorizados apenas como líquidas instalações, expressam mais verdades sobre o que nós realmente somos que uma obra clássica documental. Em “Water Clock”, novo curta-metragem de Regina Miranda (de “Vislumbres” e atriz em “Me Cuidem-Se!“), essa percepção se torna mais explícita quando sensações ofertam atravessamentos a seus espectadores. O que encontramos é uma tradução da essência da vida, por formas,  fusões, desprendimentos, desconstruções e sinergias em um equilibrado caos visual.

Pare agora. Tente não pensar em nenhuma memória que o cérebro mostra como se fosse um banner na timeline do Facebook. Não dá. Nossas sinapses procuram rapidamente refúgios e/ou imaginações. Projeção ou não, tanto faz se fragmentos, elipses, sussurros, perdas, retornos, transmutações invertidas da realidade e se a personificação do invisível, que nos obriga a enxergar a metafísica da água, incolor, inodora e insípida. A melhor definição de vida. Uma composição química feita para ir. Para não ser nada. Mas que sem este alimento-bebida de hidratação não sobreviveríamos. Uma antropofagia mineral e/ou captada artificialmente, dependendo do contexto.

“Water Clock” transborda a própria experiência ao gritar catarses e silêncios, quase como uma meditação guiada em ritmo de aventura, nas performances de Marina Salomon e Patricia Niedermeier, e edição de Adriana Nolasco. Um paradoxo, inclusive, por confrontar a plenitude individual da orgástica felicidade entregue das performances com a contemplação coletiva, estimulando a todos sem exceção o querer deste resultado. É uma alquimia de corpos em movimentos e epifanias extra-matérias. As sombras, por sua vez, amalgamam uma correnteza desembocada na próxima reação coreografada, em técnicos e sistemáticos delírios conduzidos. Um transe acordado e consciente que permite domar o próprio caminho pela expurgação exorcista de um conceitual balé contemporâneo (ainda que completamente atemporal em sua ambiência psicológica) de ritmo subjetivo.

Ao olhar o possível reflexo das imagens, nossa mente nos encontra e também quer se auto-analisar. Regina Miranda conhece muito bem esse desejo e nos presenteia com a imersão do dentro para encontrar a melhor saída de suportar o fora. Sem bloqueadores bipolares. Em “Water Clock”, o nada é diamante bruto a ser lapidado. E o ouro almejado é transformado no processo do que vemos. Nesta proposital (des)sinfonia de ruídos, sons, cores, estéticas e vanguardas. Para assim tentar “descobrir o que existe além daqui”, entre “incógnitas”, “hipóteses” e o “desconhecido” nesta confusa “linha de chegada”, que mais nos desestabiliza pela nossa total incapacidade de libertar nossas liberdades e ser livre finalmente.

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    Poesia pura esse belíssimo texto!!!
    Flutuação no texto filme corpo tempo agua. OBRIGADA Vertentes de Cinema por mergulhar nessas diversas águas com a gente.🙏🏼🍀🌿🌾BRAVO!

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